— Eu... eu...
Ótimo. Excelente. Maravilhoso.
Ali estava eu, sentada à mesa de café da manhã, encarando minha futura sogra enquanto meu cérebro procurava uma resposta que não soasse como “entreguei o anel a um agiota na porta da faculdade porque fui ameaçada de morte, bom apetite”.
— Eu... não gosto muito de usar acessórios — consegui dizer, finalmente. — Trauma.
Claire arqueou uma sobrancelha.
— Trauma?
— Sim. Quero dizer... de onde eu venho, arrancam até o seu pescoço se acharem que você está usando uma correntinha de ouro. Então... — dei de ombros, tentando parecer casual — prefiro usar só em ocasiões especiais. E seguras.
Claire levou a xícara à boca com calma glacial.
— Como o baile? Você vai usá-lo, não vai?
— Claro. Claro que vou usar no baile.
E, antes que mais alguma pergunta pudesse me atingir em cheio, enfiei um pedaço de pão na boca. Uma estratégia surpreendentemente eficaz, considerando que ninguém espera grandes respostas filosóficas de uma pessoa mastigando.
Mas o problema continuava lá: eu estava ferrada.
Como exatamente eu pretendia usar o anel no baile se o anel agora estava no bolso de um agiota de favela com senso de oportunidade?
Podia ir atrás dele. Podia tentar conversar, oferecer outra forma de pagamento, prometer o resto do dinheiro, sei lá. Também podia escolher a saída mais óbvia, sensata e adulta: contar para Arthur o que tinha acontecido.
Quero dizer, ele seria compreensivo, não seria?
Eu não tinha entregado o anel porque quis. Não tinha jogado a joia fora num acesso de ingratidão. Eu tinha sido coagida. Ameaçada. Roubada, basicamente. Não era como se eu não me importasse com o presente que ele tinha me dado.
Então, na segunda-feira, depois da aula, eu respirei fundo e tomei a decisão mais madura possível.
— Eu quero um anel exatamente igual a esse — anunciei, mostrando a foto que eu tinha tirado do anel no meu dedo, na tela do celular, para a atendente da Ella Deluxe. — Urgente.
A mulher pegou o celular com as duas mãos, analisou a imagem, depois levantou os olhos para mim.
— Zara, não é? — Ela me reconheceu. — A noiva do senhor Arthur Sartori?
Prendi a respiração por um segundo.
— Sim. É... sou eu. Mas isso é segredo. Arthur não pode saber que eu estou pedindo isso. É uma... surpresa. Só... algo diferente que eu quero fazer.
A atendente me olhou com aquele sorriso profissional de quem sabe que eu estou mentindo, mas vai fingir que acredita em mim.
— Certo. O problema, senhorita, é que o senhor Sartori pagou por exclusividade por esse modelo. Não podemos confeccionar outro igual.
— Não... não podem?
— Não.
— Mas é para mim. Ele fez o anel para mim, eu posso querer uma cópia, certo?
— Infelizmente, mesmo a senhorita sendo a noiva do senhor Sartori e a presenteada com a peça, não podemos produzir outra sem a autorização dele. Além disso, nossas peças exclusivas são feitas de forma artesanal. Não conseguiríamos garantir uma cópia exata.
Senti minha alma saindo do corpo em parcelas.
— Cópia?
Fechei os olhos por meio segundo.
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