MINUTOS ANTES...
Genevieve apertou a minha mão dentro da cabine com mais força quando as duas mulheres lá fora começaram a rir.
Era aquele tipo de risada baixa, íntima, de quem se sente segura demais falando crueldade num banheiro de baile, como se o mundo inteiro fosse feito para que elas comentassem a reputação dos outros enquanto retocavam o batom.
— Eu só tenho pena do senhor Altieri — disse a primeira, num tom carregado de falsa compaixão. — Um homem tão bom, tão íntegro. Um partidão, na verdade.
A outra soltou um risinho nasalado.
— Querida, ele tem quase noventa anos.
— Exatamente. Não dura muito mais.
E elas riram de novo.
Senti meu corpo inteiro endurecer.
Genevieve percebeu na mesma hora. Ela me conhecia há pouco tempo, mas aquilo ali não exigia intimidade. Exigia olhos funcionando. E ela viu o jeito como meus ombros subiram. Como minha respiração mudou. Como meus dedos apertaram os dela até quase doer.
Do lado de fora, a primeira mulher continuou, como se estivesse escolhendo qual parte da minha vida pisaria primeiro.
— Além do mais, ele já passou por tanta coisa que o coração não deve estar dos melhores. Dizem que a Heleninha acabou se envolvendo com um traficante antes de morrer.
A outra fungou com desdém.
— Não duvido. Nunca foi flor que se cheire.
Foi ali que eu parei de pensar.
Genevieve ainda tentou me segurar. Senti os dedos dela fecharem mais forte na minha mão, o movimento rápido de quem já previa desastre.
Mas eu já tinha empurrado a porta da cabine.
Saí de dentro do box como uma bala mal direcionada.
Não sei exatamente qual das duas eu escolhi atingir primeiro. Só sei que, no instante seguinte, meu punho acertou um rosto. Um rosto caro, montado, claramente habituado a almoços beneficentes e maldades passivo-agressivas, não a socos.
A surpresa da mulher foi tão grande quanto a minha ao perceber que eu realmente tinha dado o soco.
A outra gritou.
A primeira cambaleou para trás.
E eu fui atrás dela.
A mulher que levou o golpe devia ter uns quarenta e cinco anos, talvez cinquenta, com aquele tipo de beleza inflada por procedimentos em excesso, pele esticada demais e um ar de superioridade tão entranhado que nem com o nariz ligeiramente torto e sangrando ela conseguia parecer menos arrogante.
A outra saiu correndo do banheiro, tropeçando no vestido e no salto.
Agarrei a primeira pelo braço e a empurrei contra a parede.
— O que você tá aí vomitando sobre minha mãe e meu avô? — perguntei, com a voz tão baixa que chegava a ameaçadora.
A mulher começou a se debater imediatamente.
— Você é maluca! Você me machucou! Me solta! Me solta agora!
— Queria falar? Agora você fala — rosnei, empurrando-a de novo. — Fala, vagabunda!
— Zara! — Genevieve gritou atrás de mim. — Para! Para agora!
Ignorei completamente.
A mulher choramingava.
— É só o que dizem por aí...
— Dizem onde? Dizem quem? — apertei o braço dela com mais força. — Você não tava tão educada falando da minha mãe pelas costas. Fala na minha cara.
— Zara, chega! — Genevieve insistiu. — Isso vai dar muito errado!
Eu sabia que ia dar ruim. Eu só não me importava mais.
— Em uma coisa você acertou — falei, mantendo a mulher prensada contra a parede. — Eu sou igual à minha mãe. Íntegra, batalhadora... e cabeça quente. Então, se você vai falar dela ou de mim, vai falar olhando na minha cara.
A mulher me encarou com raiva, medo e indignação. Uma mistura bonita, honestamente.
— Bom, eu não menti, menti? — ela retrucou, ainda chorosa, mas com veneno suficiente para me fazer querer quebrar alguns dentes. — Eu não sei por qual loucura sua mãe saiu de casa, mas todo mundo sabe o que ela fez para sobreviver lá fora.
Eu senti alguma coisa subir dentro de mim.
— E foi seu marido quem te contou? — provoquei, batendo as costas dela na parede com mais força do que devia.
— Zara!
Genevieve agora quase gritava.
Mas, de novo, eu não conseguia ouvir nada direito além do sangue na minha cabeça.
A mulher abriu a boca para responder, só que a outra voltou nesse instante com um segurança.
— É ela! — apontou. — Ela está agredindo a minha amiga!
O segurança entrou no banheiro já me segurando pelos braços antes que eu pudesse decidir se socava a mulher de novo ou se socava o conceito inteiro de sociedade carioca.
— Senhorita, se afaste!
— Me solta!
A mulher aproveitou para escapar para o lado, se agarrando à bancada, ainda choramingando e pingando dignidade pelo nariz. E depois, saiu correndo do banheiro junto com a amiga.



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