Percebi que a música tinha parado antes mesmo de me dar conta de que eu já não estava mais dançando.
Os casais começavam a se separar pela pista. As garotas, agora todas alinhadas como se tivessem acabado de sair de uma caixa de joias muito cara, eram cercadas por cumprimentos, elogios e observações que começavam educadas e terminavam, invariavelmente, em cálculo social. Claire continuava parada ali, absolutamente irritada, como se a noite inteira estivesse insistindo em desafiar o gosto dela.
Genevieve soltou meu braço e pediu licença com um sorriso impecável, se afastando sem olhar para trás. Eu mal acompanhei a saída dela.
Virei para minha mãe.
— Onde ela está?
Claire nem piscou.
— Ela está bem. Já fizeram um curativo no nariz e ela retornou ao baile, mas...
Olhei para ela, sem paciência nenhuma.
— Não a viúva Mattias. Zara. Onde Zara está?
Minha mãe respirou fundo como quem está sendo submetida a uma humilhação pessoal.
— Não é possível que você ainda esteja se importando com essa... garota. Quer saber? — continuou Claire. — Genevieve salvou a noite. Você deveria agradecê-la por ter dançado com você. Assim, pelo menos, ninguém fica sabendo que está noivo daquela desclassificada.
Minha mandíbula travou.
Ela percebeu. E mudou de tom no mesmo instante, pegando minhas mãos como se ainda existisse algum cenário em que eu fosse um menino de dez anos disposto a ser orientado.
— Filho, ainda dá tempo de mudar de ideia. Seu pai vai entender. Tem tantas garotas mais adequadas e...
— Não vou discutir isso com você aqui.
Soltei as mãos dela e dei as costas antes que ela dissesse alguma coisa pior. Ou antes que eu dissesse.
Saí determinado a encontrar Zara. Mal dei alguns passos, no entanto, quando outra voz me cortou.
— Cheguei a tempo? Não me diga que perdi.
Virei o rosto.
— Pai?
Eduardo Sartori estava parado bem ali, ainda com o paletó impecável, mas ligeiramente desalinhado. O nó da gravata um pouco frouxo, o cabelo menos obediente do que de costume. Em qualquer outro homem, aquilo seria insignificante. Não no meu pai.
Ele abriu um sorriso cansado.
— Vim direto do aeroporto pra cá. Não queria perder a apresentação da Zara. Quero muito conhecê-la. Seu padrinho me mostrou algumas fotos. Menina bonita. Você deu sorte.
Olhei para o salão, depois de novo para ele.
— As apresentações já terminaram. Mas você não perdeu nada. Zara não participou.
O sorriso dele sumiu.
— O quê? Por quê?
— É uma longa história. Mas logo o senhor vai ouvir a fofoca por aí.
Fiz menção de sair de novo, mas parei e me virei rapidamente.
— A propósito, minha mãe já odeia a Zara.
Meu pai soltou uma risada.
— Então definitivamente é a garota certa.
Ele ainda piscou para mim.
Continuei andando antes que alguém resolvesse me parar de novo. Foi Angélica quem me interceptou desta vez.
— Arthur — ela chamou em voz baixa. — A Zara está na ala hospitalar improvisada, no corredor lateral dos bastidores. Bateu a cabeça, mas me disseram que está bem.
Assenti sem perder tempo com educação adicional. Fui direto para lá. Cheguei à porta da salinha e mal bati. Já estava entrando quando ouvi a voz dela.
— Vô... por que exatamente você e minha mãe brigaram?
Parei no mesmo instante.
A porta fez um barulho discreto, e tanto Zara quanto Augusto se viraram na minha direção. Eu me senti alguém invadindo um lugar que não lhe pertencia.
— Desculpa — falei, mais baixo. — Não queria atrapalhar. Não sabia...
Augusto se levantou com calma, como se o assunto não estivesse pesado o bastante para mudar a temperatura da sala.
— Tudo bem. Zara e eu temos todo o tempo do mundo para conversar depois. — Ele ajustou o paletó e me lançou um olhar breve, cheio de significado demais para aquele momento. — Por que não faz companhia para sua noiva?
Augusto saiu, e eu esperei a porta fechar antes de me mover de verdade. Só então fui me sentar na cadeira que ele tinha deixado vaga ao lado da maca.
Olhei para Zara.


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