Cheguei em casa naquela noite com o tipo de cansaço que não vem só do corpo. Vem de tudo. De fingir que entendia a diferença entre arranjos de flores sazonais e atemporais. De sorrir para a wedding planner enquanto ela me mostrava amostras de papel para convite e eu só pensava em dormir por quarenta e oito horas seguidas.
Subi a escada já calculando o tempo que um banho quente levaria para me devolver à humanidade, quando ouvi.
Música.
Suave, antiga, vindo da ala dos escritórios. Jazz, eu achava — o tipo lento, com trompete baixo e piano cansado, que parece ter sido composto por alguém que já sofreu o suficiente para saber fazer isso virar arte.
Segui o som até a porta do escritório do meu avô e bati de leve.
— Entre.
Augusto estava sentado na poltrona de sempre, com um copo na mão e o olhar perdido na janela. A música vinha de um aparelho de som antigo no canto da sala, daqueles com madeira e botões físicos, que parecia tão fora de tempo quanto perfeito naquele ambiente.
Mas o que me fez parar foi a mão dele.
Ela tremia levemente em volta do copo.
— Vô? O senhor está bem?
Ele ergueu os olhos para mim e sorriu daquele jeito que tentava me tranquilizar antes mesmo de eu terminar a pergunta.
— Ah, sim, querida. Só cansaço. Uma dorzinha aqui, outra ali. Coisa de velho.
— Já tomou seus remédios hoje? Não é bom beber a essa hora.
— Já tenho um médico particular, querida. — Ele me apontou com o copo, divertido. — Você só precisa ser minha neta.
Sorri, fui até ele e dei um beijo na testa. Depois me deixei cair no sofá, largando a bolsa no chão com um barulho pouco elegante que nenhuma das aulas de postura da instrutora do baile ia conseguir tirar de mim.
— Quem canta essa música? É bonita.
Augusto inclinou levemente a cabeça, ouvindo por um segundo antes de responder.
— Chet Baker. Almost Blue. — Uma pausa. — Estava tocando quando conheci sua avó.
Virei o rosto para ele.
— Mesmo?
— Foi em um baile. — Ele pousou o copo na mesa, como se a memória pedisse as duas mãos livres. — Não nesses de rico que você frequentou semana passada. Nessa época, eu ainda não frequentava esses lugares. Era um baile animado, cheio de gente, mas com uma elegância própria. E lá estava ela.
Ele parou um momento.
— A mulher mais linda do salão. Eu não conseguia tirar os olhos dela. Então fui até lá e pedi pra dançar. Achei que ia levar um não. Mas ela aceitou.
— E aí? — perguntei, já completamente esquecida do cansaço.
— E daí que dançamos a noite inteira. — Ele sorriu com os olhos. — E desde aquele dia nunca mais nos separamos. Dançávamos juntos todas as sextas-feiras enquanto ela estava viva.
Fiquei olhando para ele por um segundo.
Depois me levantei e estendi a mão.
— Então vem. Dança comigo.
Augusto me olhou com uma mistura de surpresa e resistência suave.
— Ah, querida, eu estou cansado...
— Vai dançar comigo no meu casamento, não vai? — insisti, balançando a mão na direção dele. — Precisamos treinar. Tenho duas pernas esquerdas.
Ele riu. Uma risada curta, genuína, que chegou aos olhos.
— Você dançou muito bem no baile de debutantes.
— Acredite, foi uma luta.
Ele ficou me olhando por um segundo, com aquela expressão de quem está pesando resistência contra afeto e sabe que o afeto vai ganhar. Então se levantou devagar, apoiando uma mão no braço da poltrona, e veio até mim.
Coloquei uma mão no ombro dele e a outra aceitou a mão que ele me ofereceu, e começamos a nos mover pelo escritório no ritmo lento do Chet Baker, sem pressa, sem técnica perfeita, sem instrutora gritando sobre postura.
Ele errou um passo.
Eu errei dois.
Rimos ao mesmo tempo.


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Os comentários dos leitores sobre o romance: INVENTEI UM NAMORADO E ELE ERA MEU NOIVO BILIONÁRIO