Eu estava tentando parecer normal. Estava tentando respirar de um jeito que não entregasse que meu corpo inteiro estava traindo minha tentativa de parecer uma pessoa funcional, mas o tremor nos dedos era pequeno demais para eu controlar e grande demais para passar despercebido.
A mão de Arthur, ainda segurando a minha, deu um leve apertão. Um apertão que entendi como “tudo bem, está tudo sob controle”.
Mas eu não sentia que nada estava controlado.
E então ele falou.
— Policial Lima, minha noiva passou por um momento traumático com uma arma apontada para a cabeça dela — a voz saiu com aquela calma de médico em emergência, firme e sem espaço para contestação. — Estive a tarde toda tentando distrai-la um pouco, mas, como pode ver, só de mencionar o assunto ela começa a ter uma crise nervosa. Então, agradeço pelo serviço que vocês vêm fazendo, mas não. Ela não vai depor. Prefiro resguardar a saúde dela nesse momento.
— Entendemos a situação, senhor Sartori — o policial disse, com aquela paciência treinada de quem já ouviu muita recusa. — Mas o depoimento da senhorita seria de grande valia para o andamento do caso. Se pudermos apenas...
— Mas não podemos — Arthur cortou, sem alterar nem um decibel do tom. — Se precisarem de mais detalhes ou de um novo depoimento, eu colaboro. Zara, sobe.
Não pensei duas vezes.
Soltei a mão dele e subi as escadas numa velocidade que provavelmente não era o que se esperava de uma mulher em estado de crise nervosa, mas era o máximo de dignidade que eu conseguia oferecer naquele momento. Fechei a porta do quarto atrás de mim e encostei as costas na madeira, ficando assim por um segundo, só ouvindo o próprio coração tentando se regular.
Arthur não era besta.
Ele sabia. E eu sabia que ele sabia, porque havia aquela coisa nos olhos dele enquanto falava com o policial... aquela atenção dividida de quem está resolvendo um problema e simultaneamente catalogando outro. Ele sabia que meu nervosismo não era por ter tido uma arma apontada para a minha cabeça. Aquela nem tinha sido a primeira vez que eu encarei uma arma, e ele provavelmente já tinha percebido isso também.
Ele ia querer saber o motivo real.
A questão era: até onde eu estava disposta a contar a verdade? E até onde eu estava disposta a mentir?
Precisava de ajuda. Precisava de uma coisa que eu raramente tive antes na vida: uma amiga de verdade para ligar num momento exatamente como aquele.
Peguei o celular, me tranquei no banheiro e liguei para a Genevieve.
Ela atendeu no segundo toque, com aquela voz animada de quem estava esperando novidades e ia gostar do que ia ouvir.
— Como estão as coisas por aí?
— Hum... — Sentei na borda da banheira, passando a mão no cabelo ainda bagunçado do lago. — Eu não sei exatamente por onde começar. Pelo assalto ou pelo sexo.
Silêncio de dois segundos exatos.
— O quê? — A voz dela subiu um tom. — Vocês dormiram juntos, mas... espera... vocês foram assaltados? — Uma pausa maior. — Zara, sua vida é uma novela.
— Minha vida é um romance policial. — Me levantei, andando de um lado para o outro tanto quanto o banheiro permitia. — Porque nesse exato momento tem dois policiais lá embaixo conversando com Arthur e eu não posso nem chegar perto.
— Você ainda não contou para ele, contou?
— Bem... não.
— Zara. — A voz dela ficou séria de um jeito que me fez parar de andar. — Você sabe o quanto eu sou adepta da verdade. Mas não se isso coloca a vida do Arthur em risco. Você não pode...
— Eu sei, eu sei. — Suspirei, apoiando a testa na parede fria do banheiro. — Mas ele vai querer saber. E eu vou ter que responder alguma coisa. O que eu faço? Distraio ele com sexo?
Disse aquilo meio brincando, esperando uma risada do outro lado. Mas Genevieve respondeu rápido e séria demais.
— Isso não ia funcionar.
Parei.
Ela tinha dito que nunca tinham tido nada de verdade entre eles. Então como poderia saber?

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Os comentários dos leitores sobre o romance: INVENTEI UM NAMORADO E ELE ERA MEU NOIVO BILIONÁRIO