Beatriz finalmente nos chamou para cortar o bolo.
Foi um processo mais elaborado do que eu esperava, considerando que era, no fim das contas, só um bolo. Um fotógrafo se posicionou estrategicamente, alguém ajustou a iluminação ao redor da mesa criando um pequeno spot quase teatral, e Arthur e eu fomos guiados até lá com a faca cerimonial — prateada, pesada, com um laço de fita branca e rosa na base — pousada com cuidado ao lado do andar mais alto. O bolo era mais alto do que eu lembrava de ter encomendado, com três camadas decoradas de um jeito que conseguia parecer simultaneamente sofisticado e absurdamente convidativo. Seguramos a faca juntos, mãos sobrepostas, e cortamos o primeiro pedaço sob aplausos e flashes que pareciam capturar um movimento muito mais dramático do que de fato era — uma fatia de bolo de chocolate, no fim das contas, por mais bonita que fosse a cena ao redor dela.
Cerca de vinte minutos depois, finalmente nos sentamos novamente. O bolo já estava circulando entre as mesas havia algum tempo, fatiado e servido pelos garçons.
— Eu tenho que admitir — Arthur falou, assim que terminou de mastigar sua fatia. — Você fez uma boa escolha.
— Eu sei! — Peguei o garfo dele e roubei um pedaço só para confirmar. — Tá todo mundo fingindo que é um bolo brega, mas olha só aquela senhora ali. — Apontei discretamente. — Já guardou dois pedaços na bolsa. Dois! É por isso que ela veio com aquela bolsa enorme.
Arthur seguiu meu olhar e riu.
— Acha que conseguimos esconder alguns pedaços embaixo desse vestido?
— É provável. — Provoquei, me aproximando um pouco mais. — Mas pode ser que eu precise de ajuda para tirá-lo depois. Sabe... para não sujar.
— Sempre à disposição.
A tensão entre nós estava chegando exatamente onde eu queria que chegasse quando Beatriz apareceu ao meu lado com aquela urgência específica de agenda apertada.
— Zara, é hora de jogar o buquê.
— Achei que você tinha dito que isso estava ficando ultrapassado.
— Achei que você tinha dito que gostava de tradições.
Não tive resposta para isso.
Várias mulheres solteiras se reuniram no salão de festas enquanto eu era conduzida ao segundo andar, de onde, segundo a tradição reinventada para aquela mansão, eu deveria jogar o buquê para a multidão lá embaixo. Quando olhei para baixo vi um aglomerado de vestidos coloridos esperando, algumas rindo nervosamente, outras já de braços estendidos como se aquilo determinasse mesmo alguma coisa sobre o futuro delas.
Me virei de costas, segurando as flores brancas e bicolores que combinavam perfeitamente com as pétalas que tinham caído sobre nós na cerimônia, senti o peso leve do buquê na mão por um último segundo, e arremessei.
Quando me virei de novo, vi o exato instante em que o buquê aterrissava direto nos braços de Alícia.
Não que ela tivesse feito o mínimo esforço para isso. Ela nem sequer tinha levantado os braços como as outras. Foi como se as flores simplesmente tivessem sido atraídas até ela, como um ímã, sem qualquer interferência da vontade dela. Por um segundo, nossos olhares se cruzaram através da distância do salão, ela lá embaixo segurando aquele buquê como se fosse uma piada de mau gosto que o universo tinha decidido fazer especificamente com ela. Não sorriu. Não comemorou. Só ficou parada por um instante antes de se virar de costas e sumir entre a multidão, deixando atrás de si um burburinho de comentários que eu nem precisava ouvir para imaginar o conteúdo.



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