Capítulo 342 – Enquanto eu respirar
Aline
A minha vida mudou da água pro vinho desde o dia em que Jordan e Evelyn entraram em meu consultório pela primeira vez. Nossa conexão foi forte e palpável, que naquele dia não ganhei uma paciente, ganhei amigas e hoje irmãs.
E foi através delas que conheci o homem da minha vida, um dia eu pensei ter amado Kevin mas nunca foi amor, foi desespero. O desespero de uma mulher em querer ser vista por alguém que ela julgava importante. Foi uma ilusão, que por obra de Deus, destino ou acaso… acabou.
E no final foi libertador, porque mesmo que por um tempo me fechei para essa coisa chamada “amor”, hoje esse mesmo sentimento toma cada célula do meu ser e ele não tem um nome genérico, ele se chama Thomas Mitchell, meu capitão.
É estranho pensar que eu disse sim a alguém um dia, mas esse alguém não merecia. E hoje, depois de anos essa palavra voltou a sair da minha boca, e com o peso de um pra sempre.
“Sim.”
Agora eu sou oficialmente a noiva do Tom. O pedido não foi simples, ele foi perfeito! Só que logo depois dessa felicidade transbordante o medo me atingiu.
Minha irmã Rosario, e minha sobrinha Aurora neste exato momento correm risco. E eu farei de tudo para que nada aconteça com elas.
— Vamos, doutora, precisamos agilizar. — o obstetra disse, já empurrando a maca para dentro do centro cirúrgico.
Entrei junto, Cat ao meu lado, ambas correndo atrás da maca. Uma enfermeira de touca nos barrou na antessala:
— Precisam se paramentar. Agora!
Nossas mãos tremiam, mas seguimos o protocolo. Avental estéril, gorro, máscara, luvas. Lavei as mãos como se pudesse lavar o medo também. O coração me martelava, mas minha cabeça repetia: foco, Aline, ela precisa de você.
Entramos novamente, o ambiente já pronto, monitores apitando, a anestesia em preparo. Rosa estava ofegante, mas consciente. Me aproximei e segurei sua mão gelada.
— Vai dar certo, irmã. Eu tô aqui. — sussurrei.
— Eu confio em você, cariño… — ela murmurou com dificuldade, os olhos marejados. — Traz minha niña ao mundo, e cuida dela pra mim.
— Vamos trazê-la, juntas. E cuidaremos dela. — Dei um beijo em sua testa antes de concluir. — Juntas.
Rosa sorriu, mas as lágrimas escorreram. O obstetra fez a incisão. O tempo pareceu se arrastar em câmera lenta, cada movimento da equipe sendo um bisturi no meu coração. Então, um choro.
O som mais bonito do mundo.
— É uma menina! — o obstetra anunciou, erguendo o pequeno corpo.
Quando ouvi o choro dela, foi como se o mundo tivesse parado só para aquele som existir. Minha respiração falhou, minhas pernas quase cederam. Nossa Aurora tinha chegado. Ela estava viva, e bem.
— Nossa Aurora… nossa Aurora nasceu. — eu disse sem conseguir conter a emoção.
Meus olhos se encheram de lágrimas. Cat soluçava baixinho após o susto, pegou a pequena e fez o primeiro atendimento rapidamente.
Cat, com uma das enfermeiras, caminhou com Aurora até nós. E Rosa… Rosa sorriu. O sorriso mais lindo que já vi.
— Ela… ela tem os olhos azuis do Ben… — Rosa disse, a voz fraca mas cheia de ternura. — É minha cópia, com os olhos dele…
Rimos juntas, eu, Cat e ela. Foi um instante de luz em meio ao caos. Eu encostei minha testa na dela, agradecendo em silêncio por aquele milagre.
Tentei voltar ao seu lado, mas Cat me segurou. Eles corriam, aplicavam medicações, usavam o desfibrilador e nada. O som estridente cortava a sala como navalha, cada segundo de silêncio da Rosa era um grito dentro de mim. A linha reta no visor, o barulho do aparelho tomando conta da sala, o som de uma vida que se foi.
— Sinto muito, sinto muito… — Cat sussurrava aos prantos em meu ouvido. Um dos médicos se aproximou, o olhar pesado.
— Precisamos dar o horário…
— NÃO! — gritei, empurrando-o com força. — Ela não é um número! Ela não é uma estatística!
Coloquei as mãos no tórax dela, o coração em pedaços mas a mente em modo automático.
— Vamos reanimar. — falei, firme, sentindo as lágrimas caírem dentro da máscara. — Enquanto eu respirar, ela também vai! — Eu não aceitava um final diferente. Não com Rosa. Não hoje. Não diante de mim.
— Doutora Carson. — o médico me disse, e havia pesar em sua voz.
— NÃO! — gritei, a voz cortando a sala. — Nada de horário! Liga o desfibrilador, prepara adrenalina, um miligrama IV! — ordenei, o coração explodindo no peito. — Depois seguimos compressão e choque!
— Doutora, nós já fizemos… — uma enfermeira começou, mas Catharina a interrompeu.
— Vocês são surdos? O tempo tá passando! Se não vão ajudar, SAIAM DO CAMINHO!! — ela gritou e nós duas corremos para o lado da Rosa.
E enquanto as compressões começavam, enquanto os choques eram preparados, eu só repetia em pensamento:
“Você não vai me deixar, Rosa. Você não vai.”

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Meu noivo Morreu e me deixou para o Inimigo