“Quem cresce na sombra aprende cedo a usar a escuridão como abrigo e como arma.”
Cássio entrou em casa com passos pesados, Silvia logo atrás. Atirou o paletó sobre o sofá e seguiu direto para a escada.
— Você não vai comer? — ela perguntou.
— Estou sem fome.
Silvia o observou subir. Não era apenas um homem moralmente diminuído — ele parecia menor. Mais magro, a pele opaca, os movimentos lentos de quem estava doente. Se falisse, não teria muita utilidade. Mas morto, seria inútil de vez. Então insistiu, modulando a voz com cuidado.
— Você precisa se alimentar melhor. Cuidar da sua saúde.
Cássio parou antes do primeiro degrau, sem se virar.
— Por que você não sobe e toma um banho enquanto eu preparo alguma coisa?
Houve um breve silêncio.
— Tudo bem.
Assim que ele desapareceu no topo da escada, Silvia pegou o celular e enviou uma mensagem curta à empregada, pedindo que viesse preparar um caldo de legumes.
Mais tarde, Cássio saiu do banho arrastando o corpo exausto. Vestiu o pijama como quem obedece por inércia. As costas ainda doíam pela queda que Helena provocara — mas nada doía mais do que o orgulho. Observou o quarto em silêncio, lembrando-se de onde cada coisa dela costumava ficar, calculando mentalmente se ainda conseguiria levantar o que faltava dos noventa milhões para sair daquela armadilha.
Deitou-se esperando sentir o perfume suave de flores e frutas vermelhas. Não havia mais nada ali — apenas a ausência. O cansaço venceu antes que percebesse. Corpo e mente cederam juntos.
Quando Silvia entrou no quarto com uma tigela nas mãos, ele já dormia profundamente. Ela a colocou sobre o criado-mudo e tentou acordá-lo.
— Cássio… — chamou, tocando-o de leve.
— Hmm…
— Cássio. Você precisa comer.
— Helena? — murmurou ele, ainda preso ao sono.
O sangue de Silvia ferveu. Por um instante, teve vontade de lançar o líquido quente sobre ele. Como ousava ainda chamar por aquela mulher?
— Cássio. — Sua voz saiu mais firme.
Ele despertou, piscando confuso, franzindo o cenho ao vê-la.
— O que foi?
— Sente-se. Trouxe comida pra você.
Tudo o que Cássio queria era voltar a dormir e fingir que o mundo não existia. Mas o aroma quente invadiu-lhe as narinas. Sentou-se com dificuldade, apoiando as costas na cabeceira. Silvia pegou a tigela.
— Quer que eu cuide de você?
— Não precisa. — Ele tomou o recipiente de suas mãos. — Eu como sozinho.
Observou o caldo espesso, pedaços de carne, ervas verdes. A lembrança veio imediata: Helena preparando algo parecido toda vez que ele adoecia. Levou a primeira colher à boca e conteve um gemido involuntário ao sentir o sabor.
— Você fez isso? — perguntou.
— Fiz. Gostou? — ela forçou um sorriso.
Ele pensou rapidamente nas embalagens de delivery que vira no lixo. Provavelmente não fora ela quem cozinhara. Mas o que importava? Uma pequena mentira não mudava o fato de que alguém estava ali tentando agradá-lo.
— Está muito bom — disse, assentindo.
Comeu até a última colherada. O calor do alimento espalhou um torpor agradável pelo corpo. Silvia retirou a tigela de suas mãos.
— Agora descanse.
Ele a observou sair. Em seguida, deitou-se novamente e se entregou ao vazio — aquele nada silencioso que, por algumas horas, o livraria de pensar.
Silvia voltou para a cozinha e abriu a torneira para lavar a vasilha. O gesto simples lhe causou repulsa. Detestava aquilo. O barulho da água, o cheiro de comida, o papel de quem cuida — tudo a jogava de volta para um tempo que preferia manter enterrado.
Lembrou-se dos turnos intermináveis na lanchonete, das mãos sempre úmidas de gordura e detergente, de quando a mãe se fora cedo demais e o pai havia escolhido o vício como forma de desaparecer. Prometera a si mesma, naquela época, que nunca mais dependeria de ninguém. Nunca mais seria reduzida à sobrevivência.
O celular vibrou sobre a bancada.
Silvia fechou a torneira de imediato.
O coração deu um salto ao reconhecer o número. Aquele. O único pelo qual ansiava nos últimos dias. Pela primeira vez, a ansiedade que sentiu não veio do medo — veio da expectativa.
Atendeu.
— Alô… — disse em voz baixa.
— Venha até a esquina.
Nada mais. A ligação caiu antes que ela pudesse responder.
Silvia permaneceu imóvel por um segundo, o aparelho ainda junto ao ouvido. Então respirou fundo. O momento havia chegado.
Subiu até o quarto com passos leves. Abriu a porta devagar. Cássio dormia pesado, o ronco irregular denunciando o desvio no nariz ferido.
Fechou a porta com cuidado, vestiu um casaco e saiu de casa sem olhar para trás.
Ia ao encontro de seu pior pesadelo. Mas pesadelos também podem ser armas. E Silvia estava disposta a aprender a como usá-lo.
...
Antes mesmo de chegar à esquina, Silvia avistou o Rolls-Royce Cullinan estacionado, imponente, os vidros completamente escurecidos como olhos fechados demais para serem lidos. Um dos capangas aguardava do lado de fora. Assim que ela se aproximou, ele abriu a porta traseira sem dizer uma palavra.
Silvia entrou. Conhecia o ritual. Conhecia o silêncio.
Dante estava acomodado no outro extremo do banco, uma perna cruzada sobre a outra, fumando um charuto espesso. A janela estava apenas entreaberta. A fumaça escapava lentamente, como se até ela obedecesse ao ritmo dele.
Ele não se virou. Não a olhou.
Silvia sentiu o estômago se contrair. Por mais que quisesse despejar ali tudo o que ensaiara — que eliminando Helena todos os problemas se resolveriam —, manteve-se calada. Com Dante, ninguém falava sem permissão.
Duas batidas secas no vidro.
O capanga entrou no banco do passageiro. O motorista deu a partida. O carro deslizou pela rua como um animal silencioso.
Depois de uma tragada longa, Dante quebrou o silêncio:
— Quando a fábrica volta a operar? — perguntou, a voz baixa, controlada. — Nosso prazo está acabando. Já tem cliente começando a ficar inquieto.
Silvia pigarreou, buscando firmeza.
— A nova coleção será lançada amanhã. Assim que o primeiro pedido entrar, as atividades voltam ao normal.
Dante apagou a brasa do charuto no cinzeiro embutido na porta com um movimento lento, quase cerimonial.
— Até terem peças prontas para despacho, isso ainda leva dias. — Virou minimamente o rosto na direção da janela. — Não podemos esperar tanto.
As mãos de Silvia formigaram. Estar tão perto dele nunca fora fácil. Inspirou fundo. Era agora ou nunca.
— Don… — começou, mantendo a cabeça baixa, o tom respeitoso. — Se não fosse por aquela mulher… Helena… — o nome saiu com cuidado — não estaríamos passando por isso. Com todo respeito, ela é o único obstáculo que ainda interfere nos seus negócios.
Dante ergueu uma sobrancelha, finalmente interessado. Não interrompeu. Deu corda.
— É mesmo? — perguntou. — E por que você acha isso?
— Foi ela quem entrou com o processo pelas coleções — respondeu, ganhando confiança. — Por causa disso, a empresa foi obrigada a parar a produção. Se não fosse por ela, nada disso estaria acontecendo.
Um silêncio pesado caiu no interior do carro.
Dante então se virou lentamente, os olhos frios fixando-se nela pela primeira vez.
— Então, segundo você… — disse com calma perigosa — se eliminarmos essa mulher, todos os problemas acabam?
Silvia assentiu, sem ousar levantar o olhar.
— Sim, senhor.
Ele soltou um riso curto. Debochado.
Num movimento rápido demais para ser evitado, Dante agarrou os cabelos dela na nuca, puxando-a para perto. O rosto dele ficou a centímetros do dela. A voz veio baixa, colada ao ouvido, cada palavra uma lâmina:
— Você é burra ou o que?
O coração de Silvia disparou enquanto o couro cabeludo ardia.
— Você acha mesmo que, se ela sumir, os processos somem junto? — Dante riu, curto, sem humor algum. — Qualquer parente vivo resolve isso. Pai, mãe, tio, primo… até um periquito com advogado pode dar continuidade a essa merda.
Ele se inclinou levemente para a frente, a voz baixa e cortante.
— Apagá-la agora não resolve nada. Só colocaria mais holofotes onde não devem estar. Investigação, imprensa, polícia farejando cada centímetro da empresa.
Fez um gesto vago com a outra mão.
— Um circo. E circo é coisa de amador.

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