"O tempo tem a estranha mania de ser tarde demais"
Quando Cássio abriu os olhos, o cheiro asséptico o atingiu de imediato. Piscou algumas vezes, tentando afastar a névoa da mente, até que a imagem se organizou: teto branco, luz fria, o contorno metálico de equipamentos ao redor. Estava em uma cama de hospital.
A cabeça latejava. Um torpor incômodo o deixava lento, mas ainda assim ele tentou se sentar.
— Você acordou? — a voz de Silvia veio apressada, enquanto ela se aproximava.
— O que… o que aconteceu? — perguntou, a garganta seca.
Antes que ela respondesse, a porta se abriu e o médico entrou no quarto.
— Que bom que despertou. Como está se sentindo? — perguntou com um tom profissional, porém gentil.
— Não sei… eu… — Cássio ainda parecia tentar montar as peças do que lembrava.
— O senhor teve uma crise de pânico — explicou o médico, respirando com empatia. — É algo relativamente comum em pessoas sob níveis elevados de estresse.
— Crise de pânico? — Cássio repetiu, como se a expressão não fizesse sentido.
— Sim. Quando sua esposa ligou para o socorro, a suspeita inicial foi de um infarto, o que é compreensível, já que os sintomas podem ser muito parecidos.
Ele fechou os olhos por um instante, buscando a memória do colapso.
— Eu… — murmurou, sem concluir.
— Recomendo que procure acompanhamento psicológico — continuou o médico. — Pode ajudar bastante a lidar com esse tipo de episódio. Se quiser, posso indicar um colega excelente.
— Psicólogo? — Cássio reagiu de imediato, a voz endurecendo. — Eu não preciso disso.
A palavra soou como uma acusação.
— Senhor Amaral, acompanhamento psicológico é algo absolutamente normal —
— Eu já disse que não preciso — cortou, irritado.
O médico sustentou o olhar por um segundo, depois suspirou.
— Tudo bem. De qualquer forma, se mudar de ideia, estou à disposição.
Cássio permaneceu irritado mesmo depois que o médico deixou o quarto.
— Você me deu um susto enorme — comentou Silvia, tentando soar preocupada.
— Mas o que diabos aconteceu de verdade? — ele insistiu, a voz tensa.
— Eu não sei ao certo — respondeu ela. — Você estava assistindo televisão. Eu subi por alguns minutos e, quando voltei, te encontrei pálido, suando, segurando o peito… com uma expressão de dor.
— Televisão… — murmurou Cássio, como se a palavra fosse um fio solto.
Ele puxou a lembrança — e ela veio inteira, brutal. O comercial. A voz. O rosto de Helena. A Orsini Design. O nome dela surgindo na tela como um selo definitivo. E, logo depois, a falta de ar, a dor esmagadora no peito.
A fisgada ameaçou retornar. Cássio inspirou fundo, tentando contê-la, exatamente quando a porta se abriu e Renato entrou apressado.
— O que aconteceu, cara? — perguntou o amigo, já ao lado da cama.
Cássio não respondeu de imediato. Apenas percebeu o olhar de Renato ir dele para Silvia, atento, avaliando o clima.
— Nos deixe sozinhos, por favor — pediu Cássio, sem encará-la.
Silvia hesitou por um instante, mas assentiu. Lançou um último olhar para ele e saiu do quarto, fechando a porta com cuidado.
Renato puxou a cadeira e se sentou ao lado da cama. Cássio, inclinado, deixou o corpo cair novamente na cama.
— E então? — Renato perguntou. — A Silvia ligou dizendo que você estava infartando. Levei um susto e vim correndo.
Cássio soltou um riso curto, amargo, ainda digerindo as palavras do médico.
— O idiota que me atendeu disse que foi uma crise de pânico — falou, com deboche. — Ainda teve a audácia de sugerir que eu procurasse um psicólogo.
Renato se lembrou imediatamente do episódio no escritório, semanas antes, quando Cássio perdera o controle ao ver as fotos de Helena e Santiago de mãos dadas circulando pela imprensa. Naquele dia, já suspeitara que havia algo além de simples raiva.
— Você está passando por coisa demais, Cássio — disse com cautela. — Talvez procurar ajuda não fosse…
— Até você? — Cássio o interrompeu, num tom defensivo.
Renato se levantou, cansado, passando a mão pelo rosto.

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