Cap.140
As três permaneceram no hospital, revezando-se nos cuidados com Mima enquanto agilizam e aguardavam respostas sobre a denúncia e o processo aberto contra o tal hater que assediava Katleia online.
O plano de usar as provas do assédio parecia frágil demais diante do poder de Alex Felix, mas ainda assim era uma semente.
No final da tarde, elas puderam ser liberadas. Mima não queria ficar no hospital nem mais um dia sequer, e as meninas perceberam que ela estava apavorada, com medo de ser perseguida ou de alguém lhe fazer algo ali dentro. Selene entendeu. Alex, com sua influência, poderia ser capaz de tudo — até mesmo silenciar Guilhermina para evitar um escândalo.
Ao chegarem ao apartamento, finalmente começaram a discutir sobre os próximos passos do processo, mas…
A conversa foi interrompida pelo toque da campainha. Um som agudo que fez todas se encolherem. O apartamento não era lugar de visitas.
Selene e Katleia trocaram um olhar. Gildete se levantou, mas Selene a impediu com um gesto.
— Eu vou.
Ela caminhou até a porta e espiou pelo olho mágico. Do lado de fora, parados no corredor iluminado por uma luz fraca, estavam Átila e Axel. Não pareciam ameaçadores — Axel com seu meio sorriso habitual, Átila com sua postura séria e impenetrável —, mas a presença deles ali, naquele santuário, era uma invasão.
Com um suspiro, Selene destravou a porta e abriu apenas o suficiente para falar, seu corpo bloqueando a entrada.
— O que vocês querem? — sua voz estava gelada, carregada da desconfiança de quem já fora enganada por aquele sobrenome.
— Precisamos falar com você, Selene — disse Átila, sua voz grave surpreendentemente suave. — Só por um minuto.
— Não é um bom momento.
— É sobre a Napoleon — Axel interveio, segurando um envelope de papel pardo.
A menção da universidade fez o coração de Selene bater mais rápido — não de esperança, mas de raiva. Ela hesitou, mas o olhar de Katleia por trás dela, um misto de alerta e curiosidade, a fez ceder.
Ela abriu a porta e recuou, permitindo que os dois homens entrassem no pequeno espaço.
A sala pareceu encolher com a presença deles. Mima, no sofá, puxou o cobertor até o queixo, os olhos arregalados de medo ao reconhecer os homens ligados a Adon — e, por extensão, a Alex.
Átila não fez menção de se sentar. Estendeu o envelope para Selene.
— Isso é seu.
Selene encarou o envelope como se fosse uma serpente.
— O que é? Outra mentira? Outro jogo?
— Abra — incentivou Axel, com um tom mais sério do que o habitual.
Com dedos que tremiam levemente, Selene pegou o envelope e o abriu. De dentro, retirou uma carta oficial.
O cabeçalho da Universidade Napoleon. O texto, claro e direto, confirmava sua admissão no curso de Administração e Negócios, com bolsa integral reinstituída. Havia um carimbo do reitor, uma assinatura. Era real.
Ela levantou os olhos, confusa e desconfiada.
— Como? O diretor disse… Alex Felix…
— Anulamos a ordem dele — explicou Átila, a voz firme. — Usamos certas… influências. A burocracia da universidade é lenta, mas o poder do medo é rápido. O diretor recebeu uma ligação de um juiz amigo da família. A pressão de Alex foi neutralizada. Afinal, também somos Felix.
— Por que fariam isso? — Selene perguntou, a carta pesando em sua mão. — O que querem em troca?
Átila trocou um olhar rápido com Axel.
— Nada. Não é um presente. É a restituição de um direito que foi roubado de você. Você pode fazer a faculdade que quiser, onde quiser. Mas essa… — ele apontou para a carta — …é sua por direito. Pelo seu mérito. Você conquistou isso, e não achamos justo que alguém tire o que foi você quem conseguiu.
Axel então colocou uma pequena bolsa de presente e um envelope mais fino sobre a mesa de centro.
— E isso… é um pouco de ajuda para você se reerguer. Para os livros, transporte, o que precisar enquanto não tem um emprego.
Selene olhou para os itens, e uma fúria fria começou a substituir a confusão. Ela pegou o envelope fino, abriu-o e viu um cheque com uma quantia que fez seus olhos se arregalarem — suficiente para cobrir anos de despesas.
— Dinheiro — ela disse, a palavra saindo como um cuspe. — Vocês estão tentando encobrir seu pai com isso? — Ela apontou para Mima, que se encolhia no sofá. — Olhem para ela! Vocês sabem do que o pai de vocês é capaz! Me pergunto o que ele é além do Grupo Felix… porque isso não parece coisa apenas de um homem de negócios. Parece coisa de um criminoso.
A sala ficou em silêncio. A pergunta de Selene ecoou, carregada de suspeitas e medos acumulados.
Axel pareceu desconfortável. Átila, no entanto, manteve a compostura. Um sorriso tenso, quase sem jeito, tocou seus lábios — como se estivesse buscando respostas.
— São… coisas de família, Selene. Coisas complicadas. Mas aceite o dinheiro. Não como um presente dele ou nosso. Use para algo bom. — O olhar dele se fixou no dela, intenso e sincero. — Doe para o seu orfanato, por exemplo. Deve estar precisando, certo? Reformas, comida, roupas… isso faria a diferença.
A sugestão atingiu Selene como um raio. A raiva ainda fumegava, mas a ideia era pragmaticamente brilhante.
Ela olhou para o cheque, depois para os rostos atentos de Katleia e Gildete, e por fim para o rosto machucado de Mima.
Uma era da Madre, tensa e submissa.
— …está tudo em ordem. Ela está pronta. Não causou problemas.
A outra voz era masculina, profunda e carregada de autoridade.
— Bom. O carro volta amanhã, ao amanhecer. Não quero atrasos. E lembre-se do seu silêncio. É para o bem dela… e do seu orfanato.
— Sim, senhor. Compreendido perfeitamente.
Selene congelou. O sangue pareceu parar em suas veias.
Amanhã, ao amanhecer.
Ela agarrou o braço de Katleia com força. Os olhos da amiga estavam arregalados de horror.
Elas se afastaram rastejando, correndo apenas quando alcançaram uma distância segura, escondidas atrás do galpão de ferramentas.
— Selene, pelo amor de Deus, o que você pensa em fazer? — sussurrou Katleia, ofegante. — Isso é muito maior que a gente! São homens perigosos!
Selene respirou fundo. Raiva, medo e impotência se fundiam em uma determinação de aço.
— Não podemos impedir que levem a menina amanhã — disse, surpreendentemente calma. — Não diretamente.
— Então o quê? Vamos ignorar? — Katleia perguntou, desesperada.
— Não. — O olhar de Selene era de fogo frio. — Vamos descobrir quem está sendo levada.
Ela encarou o prédio sombrio do orfanato, seu passado ainda ecoando ali.
— Vamos esperar eles irem embora, fingir que acabamos de chegar e procurar ao redor. — sussurrou. — Nós voltamos. E vamos descobrir o nome da menina que vai desaparecer amanhã.
Era um risco enorme. Mas, para Selene, depois de quase ter seu futuro destruído, permitir que outra garota tivesse o seu roubado… não era mais uma escolha.
— Selene… isso é muito arriscado.
— Relaxa. Só vamos chegar primeiro que eles — respondeu, com uma segurança assustadora. — É um jeito de lidar com esse tipo de gente: roubando aquilo que eles acham que é deles.

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Os comentários dos leitores sobre o romance: Quarto errado, Mafioso certo!