Cap.153
O SUV preto navegava pelas ruas iluminadas pelo crepúsculo.
Dentro, o ar estava carregado de um silêncio tão denso que o ronco do motor parecia um murmúrio distante. Átila estava ao volante, os dedos brancos de tanto apertar o couro.
No banco do passageiro, Axel girava um envelope fechado entre as mãos, como se fosse uma granada.
O envelope era marrom, discreto. Dentro dele, repousava um relatório com o logotipo de um laboratório genético de elite.
O resultado era inequívoco. A linha que comparava o perfil de DNA de Selene com os registros biológicos da família Felix mostrava uma probabilidade de 99,99% de relação de irmandade completa.
— Cassete — Axel quebrou o silêncio, a voz rouca. — É ela. É a Simone.
Átila não disse nada. Apenas apertou os olhos, como se a dor física pudesse afastar a verdade. Ele tinha suspeitado, tinha investigado, mas ver o fato impresso, científico, inquestionável… era diferente.
Era como se o fantasma que os assombrava há anos tivesse se materializado, vestido de bartender e com olhos cheios de uma dor que eles não haviam reconhecido.
— O que a gente faz? — Axel perguntou, olhando para o irmão.
Átila engoliu seco.
— Temos que contar. Para o Adon. Para ela.
— Como, porra? — Axel esbravejou, baixando a voz imediatamente depois. — “Oi, Adon, lembra da sua mulher que você quase matou de paixão e ciúme? A mesma cuja virgindade você tirou? Aquela com quem você acabou de se casar legalmente pra proteger? Pois é, na verdade é nossa irmãzinha perdida, que você mesmo abandonou no orfanato. Surpresa!” Ele vai enlouquecer. Ele vai nos matar se tiver um surto psicótico.
— Ele tem o direito de saber. Além disso, eles não estão bem. Pode ser o pontapé para encerrar isso sem danos. Afinal… ninguém ainda sabe do casamento deles. — Átila insistiu, mas sua voz falhou. Ele também via o desastre.
Então discou o número e ligou para Adon.
Átila ativou o viva-voz com um dedo trêmulo.
— Fala — a voz de Adon surgiu, firme, mas com um fundo de satisfação cansada.
— Onde você está? — Átila perguntou, tentando disfarçar a tensão.
— No apartamento. Com Selene. — Houve uma pausa mínima, e Adon acrescentou, como se estivesse afirmando um fato óbvio e prazeroso: — Estávamos… resolvendo nossas diferenças.
Átila e Axel trocaram um olhar de horror puro. A imagem que surgiu em suas mentes era visceral e proibitiva.
— Vocês fizeram… algo? — A pergunta de Átila saiu mais áspera do que ele pretendia.
Do outro lado da linha, a voz de Adon ficou instantaneamente gelada, defensiva.
— Selene é minha esposa, Átila. Legalmente e de todas as outras formas que importam. Qual o problema? Eu posso ficar com a minha mulher normalmente.
Minha irmã, pensou Átila, e a náusea subiu em sua garganta. Ele encostou o carro bruscamente no acostamento, incapaz de dirigir. Levou a mão à testa, sentindo um suor frio.
— Átila? — a voz de Adon ficou alerta. — O que há de errado? Vocês estão com algum problema?
— Nada — Átila forçou, a voz abafada. — Depois… depois eu ligo. Temos que resolver uma coisa.
Desligou o telefone antes que Adon pudesse questionar mais.
O silêncio no carro foi tomado por um pânico dilacerante. Axel encarava o envelope como se ele estivesse prestes a pegar fogo.
— E agora? Como a gente conta? — Axel sussurrou.
Átila balançou a cabeça, esfregando o rosto com força.
— Não sei. Não tenho a menor ideia. — Ele olhou para a cidade lá fora, seus contornos se perdendo na noite que caía. — Ele está casado com ela, Axel. Casado.
Selene olhou para Adon, surpresa pela vulnerabilidade rara em suas palavras. Tocou o braço dele levemente, um gesto silencioso de apoio.
Katleia observou aquele pequeno toque, a dinâmica entre eles. Viu a exaustão, mas também um fio de conexão que não estava ali antes. Cruzou os braços, uma fortaleza ainda de pé, mas com as muralhas tremendo.
— Eu não quero sua compensação, Adon Felix — disse ela, o nome soando como uma acusação. — Eu quero apenas uma coisa. — Apontou um dedo para ele, depois para Selene. — Cuide bem dela. Com todas as suas forças, com toda a sua esquisitice poderosa. E nunca tente nos machucar. Porque da próxima vez, eu não serei uma garota assustada em um apartamento. Serei um problema que nem você e seus irmãos saberão como resolver.
— Todas nós, na verdade. E somos cinco agora — Gildete gritou da cozinha, indicando que estava ouvindo tudo.
Era uma ameaça débil diante do poder que Adon detinha, mas carregada de uma coragem feroz que o fez respeitá-la instantaneamente. Ele assentiu, numa inclinação grave de cabeça.
— Entendido. É um acordo.
Katleia deu um último olhar para Selene, uma mistura de preocupação, reprovação e amor incondicional.
— Você sabe que dependemos uma da outra, independente de tudo.
E, sem mais uma palavra, virou-se e retirou-se para o quarto, fechando a porta com um clique suave, mas definitivo.
O silêncio voltou a reinar na salinha. Selene suspirou, o peso do dia e das revelações emocionais finalmente a sobrecarregando. Adon a puxou suavemente contra o corpo, envolvendo-a em um abraço que era ao mesmo tempo porto seguro e prisão de seda.
— Ela te ama muito — murmurou contra o cabelo dela.
— Ela é minha família — Selene sussurrou de volta, os olhos fechados.
— Mas eu te amo muito mais.
Adon a abraçou com mais força, as palavras de Katleia ecoando em sua mente: Cuide bem dela. Ele faria isso.
A qualquer custo. Mesmo sem saber que a mulher em seus braços, sua esposa, carregava no sangue o mesmo nome da irmã que ele acreditava ter perdido para sempre. A ironia era um abismo sob seus pés — e ele, sem saber, já estava caindo.

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Os comentários dos leitores sobre o romance: Quarto errado, Mafioso certo!