Cap.154
A luz suave da tarde banhava a sala modestamente mobiliada.
Selene estava enrolada em um cobertor no sofá, com Katleia sentada em uma poltrona e Gildete no chão, apoiada contra o estofado, ainda se adaptando à nova casa e à liberdade recém-conquistada.
No ar, além do cheiro de chá de camomila, pairava a presença silenciosa e opressiva de Mima, trancada no quarto ao lado — uma ferida que não cicatrizava, um segredo que respirava atrás da porta.
Gildete foi a primeira a quebrar o silêncio contemplativo, mirando Selene com um olhar que era metade preocupação, metade incredulidade.
— Então me diz uma coisa, de coração aberto. Você realmente acredita que foi uma boa ideia voltar para ele? Depois de… tudo? — Gildete puxou o colar da blusa em um gesto que indicava as marcas que todos sabiam que Selene carregava, físicas e emocionais.
— Não é sobre ser uma boa ideia, Gildete. É mais complexo que isso.
— Complexo como? — Katleia interveio, a voz mais suave que a de Gildete, mas não menos firme. — Ele te magoou profundamente, Selene. Some, reaparece como se nada tivesse acontecido, e você simplesmente abre a porta. Isso não é complexo, é… é autodestrutivo.
— Eu sei o que ele fez. Nunca vou esquecer, nem achar que foi aceitável. — Selene ergueu os olhos, primeiro para Katleia, depois para Gildete. — Mas eu também vi o arrependimento nele. E há outra parte.
— A parte bilionária e poderosa? — Gildete soltou, com um meio sorriso cínico. — Porque vamos combinar, não é todo dia que a gente se envolve com o presidente de um império global, mesmo que problemático.
— Gildete! — Katleia a repreendeu com um olhar.
— O quê? É verdade! — Gildete defendeu-se, levantando as mãos. — Selene tá apaixonada pelo Presidente Bilionário. É o conto de fadas moderno e traumático dela. Só falta a coroa e o transtorno pós-traumático oficial.
Selene não conseguiu evitar um sorriso pequeno e cansado.
— Não é sobre dinheiro ou poder. Juro que não. Se ele fosse um pedreiro com o mesmo temperamento e a mesma… intensidade, eu estaria me sentindo da mesma forma. Confusa, assustada, mas… presa. É ele, não o título.
Katleia estudou o rosto da amiga, a sinceridade crua em seus olhos. Suspirou, cedendo um pouco.
— Eu acredito em você. Acho que você realmente vê algo nele que nós não conseguimos ver. Só… por favor, seja cuidadosa. Mantenha os olhos abertos. E lembre-se de que você tem um lugar aqui, sempre. Não importa o que aconteça.
— Eu sei — Selene sussurrou, emocionada. — E ouvir isso de vocês, mesmo discordando, é tudo para mim.
Um silêncio mais confortável se instalou, até que Gildete, mudando o rumo da conversa para um terreno igualmente pantanoso, comentou:
— Falando em coisas complexas… é essa semana, né? O aniversário.
A atmosfera na sala pareceu esfriar vários graus. Até mesmo os ruídos vindos do quarto de Mima pareceram cessar por um instante.
— O aniversário de morte da Simone — Katleia confirmou, a voz ficando sombria.
Selene permaneceu em silêncio, observando as gotas de chá no fundo da xícara. Ela sabia. A data estava gravada nela de uma forma que nem mesmo suas amigas compreendiam totalmente.
— Vocês vão? — Gildete perguntou, hesitante.
Katleia balançou a cabeça.
— Eu vou. Tenho que ir todos os anos.
As duas amigas a encararam, surpresas.
— Por quê? — Gildete perguntou.
Selene parou diante dela, o coração apertando de uma forma familiar e dolorosa. Era sempre assim. Colocou o buquê de lírios brancos — os favoritos de Simone, ela sempre soubera — na base da pedra.
Mima ajoelhou-se com um gemido suave, os dedos trêmulos tocando o nome gravado: Simone. As lágrimas começaram a rolar silenciosas, mas seu rosto não expressava apenas tristeza.
Era um mosaico de raiva, culpa e uma agonia tão profunda que parecia consumi-la por dentro.
Selene ajoelhou-se ao lado dela, o próprio pranto um eco silencioso do de Mima. Choravam pela mesma pessoa, mas por razões que habitavam universos paralelos de compreensão.
— Sabe… eu nem me lembro de quem cuidou do enterro das meninas… — Selene murmurou. — Foi um milagre terem conseguido um enterro digno, em um cemitério bom.
— Você deveria saber… já que você tem família — Mima respondeu com frieza.
— Não tenho desde que me abandonaram. Além disso… não tenho nenhuma lembrança deles.
— Seria impossível esquecer — Mima retrucou. — Afinal, você parecia uma criança que vivia uma vida feliz e cheia de amor. Nunca se interessou em saber o que realmente aconteceu para eles terem que te deixar?
— Não quero saber! — Selene disse, com convicção.
— Bom… estando morta, não tem por que saber mesmo.
As duas abaixaram a cabeça ali, de joelhos, e permaneceram em silêncio por alguns minutos.
Então Mima ergueu o rosto. O olhar, encharcado e intenso, cravou-se em Selene com uma força que fez o ar rarefazer.
— Quando vai parar? — a voz de Mima saiu rouca, um sussurro carregado de séculos de dor. — Quando vai devolver o túmulo da minha irmã?

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Os comentários dos leitores sobre o romance: Quarto errado, Mafioso certo!