Cap.158
Cíntia, a eficiente e discreta chefe de segurança do andar executivo, entrou. Atrás dela, dois homens de terno, de presença sólida e olhos atentos, ficaram parados no limiar. Cíntia levava uma bandeja com café fresco e croissants.
Ela parou, seus olhos profissionais escaneando a cena: o escritório em ordem, mas com sinais da noite passada — a garrafa de água, duas taças, roupas cuidadosamente dobradas sobre uma poltrona.
E então, viu. Viu o presidente, Adon Felix, deitado no sofá, com Selene — o centro de todos os rumores — dormindo profundamente em seu colo, envolta em seu paletó.
Um sorriso minúsculo, quase maternal, tocou os lábios de Cíntia. Ela bateu palmas levemente, duas vezes, para anunciar sua presença.
Adon ergueu os olhos para ela, sem um pingo de constrangimento, apenas com uma autoridade calma.
Seu braço se apertou protetoramente em torno de Selene, que murmurou algo no sono, mas não acordou.
— Bom dia, senhor — Cíntia sussurrou, colocando a bandeja silenciosamente sobre a mesa de reuniões.
— Pode deixar as coisas aí e pode sair.
Cíntia assentiu, o olhar sério.
— Posso perguntar qual é a relação do senhor com ela, para calibrar o nível de discrição e proteção?
Adon não hesitou. Olhou para o rosto tranquilo de Selene contra seu peito e disse, com uma clareza que não admitia dúvidas:
— Ela é minha esposa.
O sorriso de Cíntia se alargou, uma expressão de satisfação e compreensão completa.
— Bom… eu já sabia que ela não era alguém comum para o senhor. Nunca vi o senhor se apegar a ninguém… — Ela fez um gesto quase imperceptível para os dois homens, que se retiraram para o corredor, assumindo seus postos. — O café está quente, e trouxe algumas peças de roupas limpas.
— Tudo bem. Obrigado.
Cíntia acenou com a cabeça e saiu, fechando a porta sem fazer um som.
Selene, na fronteira tênue entre o sono e a vigília, ouvira vozes abafadas. Sentira o abraço de Adon se apertar.
E, no confuso limbo do despertar, a última palavra que ela captou, ecoando em sua mente adormecida, foi “esposa”. Uma palavra que agora trazia consigo não a promessa de um futuro.
Ela se aninhou mais contra ele, buscando o calor, tentando adiar o momento em que o dia — e a realidade — exigiriam seu preço, até arregalar os olhos e se lembrar de onde tinha adormecido.
Selene, totalmente acordada agora e consumida por um constrangimento ardente, tentou se desvencilhar gentilmente do abraço de Adon.
— Céus… você não tem limite mesmo, não é? — ela sussurrou, sentando-se e puxando o paletó dele para se cobrir melhor. Seu rosto estava corado. — A gente acabou ficando no escritório! Todo mundo vai saber!
Adon sentou-se também, sem pressa, esticando os braços com a languidez de um felino satisfeito. Ele parecia completamente à vontade, em seu elemento.
— Não tem nada de mais nisso — ele disse, com uma calma que beirava a arrogância. — A empresa é minha. O andar é meu. E a mulher que passa a noite comigo é minha esposa. Não há escândalo, só fatos.
— Sua esposa que ninguém sabe que é sua esposa! Nem mesmo somos casados. Por que você fala como se já tivéssemos até nos casado? — Selene retrucou, mas faltava convicção. A palavra “esposa” soava estranha e proibida em seus lábios.
— Eles vão saber, no tempo certo. Assim como você — ele afirmou, levantando-se.
Foi até a mesa onde Cíntia deixara as sacolas. Dentro, havia roupas impecavelmente passadas: um terno sóbrio e uma camisa para ele, e um vestido elegante com um conjunto de roupas íntimas novas para Selene. Havia também café excepcional e croissants fresquíssimos.
— Ela pensa em tudo — murmurou Selene, impressionada apesar de si mesma.
— É por isso que ela está aqui há quinze anos — Adon comentou, entregando-lhe as roupas. — Vá se arrumar no banheiro executivo. Tem tudo o que você precisa.
Enquanto se arrumavam separadamente, uma nova rotina se estabelecia.
Era estranho, íntimo e domesticado. Selene se vestiu no banheiro de mármore, olhando para seu reflexo no espelho.
A mulher de vestido caro que a encarava parecia uma impostora, mas havia uma determinação nos olhos dela que não existia antes.
Ela estava no covil do leão. E, de alguma forma, estava aprendendo a respirar o mesmo ar.
Sentaram-se à mesa de reuniões para o café. Não era o café apressado de quem está atrasado; era um momento compartilhado, em silêncio, mas cheio de significados não verbalizados.
— O que há? Outra crise? Ainda estou digerindo o fato de meu filho caçula ter usado meu dinheiro para comprar uma adolescente do tráfico. Você sabe que não apoio essas coisas.
— Isso é outra questão — Axel disse, fechando a porta. — Isto é… pior. É sobre a Selene.
O nome fez Alex se tensionar.
— O que ela fez agora? Adon já a colocou no escritório dele, eu sei. É uma insensatez, mas ele está no comando.
— Não é sobre insensatez, Alex — Átila cortou, direto ao ponto. — É sobre quem ela é.
Ele pegou o envelope das mãos de Axel e o colocou na mesa de centro, diante de Alex.
— Há alguns dias suspeitávamos da origem e da identidade das meninas que sobreviveram àquele incêndio. A linha do tempo, o incêndio, a idade… Investigamos. Interrogamos a Mima. E confirmamos.
Alex olhou para o envelope como se fosse uma cobra.
— Confirmaram o quê? Vocês sabem que não podem mexer com isso agora. Estão investigando algo inútil.
— Não quando naquela época fomos negligentes e não analisamos os fatos corretamente.
— Do que está falando? — Alex perguntou.
— De que cometemos um erro grave no registro de morte das meninas. Que algumas estavam com identidades trocadas e, por serem órfãs, nem mesmo averiguamos direito.
— Não tem como… Além disso, naquela época as meninas confirmaram suas identidades. E, infelizmente, Simone não estava entre elas. Por que mexer com isso agora?
— Pai… naquela época, os registros e arquivos das meninas tinham sido queimados. Quem garante que elas disseram a verdade?
— Onde quer chegar?
— Queremos dizer que… não averiguamos se Simone estava mesmo morta.
— Há chances de ela estar viva? — Alex perguntou a Átila, agora atônito.

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