Cap.183
Pov. Selene
Os dias se arrastaram, cada um mais longo e insuportável que o anterior.
Eu me tornei uma atriz em um palco onde a plateia era composta por carcereiros. Cada sorriso, cada gesto de submissão, era uma linha ensaiada em um roteiro de sobrevivência, mesmo que, às vezes, eu falhasse.
Mathias era o mais fácil de enganar. Sua vaidade precisava acreditar que eu, finalmente, havia me rendido aos seus encantos novamente ou ao futuro de riqueza e poder que ele representava.
Eu deixava que ele me pegasse pela cintura, que suas mãos permanecessem um pouco mais do que o necessário em meu ombro.
Deixava que ele beijasse minha bochecha todas as manhãs — um ritual que fazia meu estômago revirar, mas que eu suportava com o olhar baixo e um sorriso tímido, fazendo-o acreditar que aquela Selene cega ainda estava ali.
— Você está mais tranquila — comentou ele certa manhã, passando o polegar sobre minha mandíbula. — Está começando a ver a beleza do que construímos. Eu te disse… as coisas serão diferentes. Afinal, Omar teria várias maneiras de ter o que quer sem precisar te tratar bem. Isso significa que ele te estima muito. Por isso, você pode confiar.
— Estou tentando — respondi, a voz um fio de seda falsa. — É um futuro… seguro. Longe das coisas ruins em que me enfiei.
Ele sorriu, satisfeito. Engoliu a isca inteira.
Em seus olhos, eu não era mais a fera encurralada, mas uma gata domesticada, aceitando o colar.
Aproveitei a liberdade relativa para explorar. Caminhava pelos corredores silenciosos da mansão, ouvindo o eco dos meus próprios passos no mármore frio. Foi em uma dessas caminhadas que ouvi vozes vindas do escritório de Omar. A porta estava entreaberta. Parei, o coração batendo forte contra as costelas.
Era a voz de Mathias, carregada de uma deferência que ele nunca usava comigo.
— Eu serei um bom marido para ela, pai. Você tem minha palavra. Mesmo que, naquela época… nosso encontro tenha sido… arquitetado naquela excursão, eu a quero ao meu lado. Custe o que custar.
A confissão, tão casual, foi um soco no baço.
Arquitetado.
Aquele encontro… a primeira vez que conheci Mathias. O dia em que ele nunca mais saiu da minha vida, até eu me tornar sua namorada.
Eu me perguntei se aquele homem realmente já tinha gostado de mim um dia.
Mas era tudo parte do plano de Omar.
Eu tinha sido um peão desde o primeiro instante em que Mathias colocou os olhos em mim.
A voz de Omar respondeu, grave e impositiva.
— Você deve se comprometer com isso, Mathias. Com a união de vocês, unimos as duas famílias mais poderosas desta cidade. Os Felix, através dela, e os Bertans, através do anúncio público de seu retorno. Eles ainda não sabem que Simone esteve viva todo esse tempo. Lembre-se de que os Bertans cortaram relações com os Felix, tornando-se inimigos mortais.
— Lembro bem — respondeu Mathias. — Até porque, naquela época, a empresa dos Felix foi quebrada pelos Bertans como vingança. Foram anos em que Alex passou tentando se reerguer, até que Adon, antes mesmo de completar dezoito anos, começou a administrar os negócios. Alex nem esperava que ele recuperasse todo o império e levasse os Felix tão longe.
— Mas foi estratégia de Alex — rebateu Omar. — Afinal, ele nunca tentou tomar o poder das mãos de Adon por causa dos Bertans. Eles só pensavam em atacar o grupo e recuaram quando Adon assumiu a empresa.
Bertans.
O nome ecoou dentro de mim. Desconhecido.
Família da minha mãe?
Eu nunca ouvira falar. Sempre pensei que Samilly fosse… apenas Samilly.
Uma mulher que amou o homem errado, fez escolhas erradas e morreu por isso.
— Sábio — murmurou. — Muito sábio. Mas você não se importa com Alex?
— Como eu poderia? — retruquei. — O homem que me maltratou de todas as formas? Acha que eu quero que ele me trate como filha? Se fosse bom, teria sido justo desde muito antes.
— Boa em analisar situações. Você está certa. Alex nunca foi um homem digno.
Ao dizer isso, senti sua expressão endurecer, a mandíbula se desenhar com força. Ele tinha raiva de Alex.
E me perguntei se essa raiva não estava ligada a Adon. Afinal, se Adon é filho dele, por que Omar está com Alex?
Além disso, ele queria que eu me casasse com seu filho bastardo, Mathias. Mas, se eu me casasse com Adon, não seria a mesma vantagem para ele?
Se bem que Adon parecia odiar aquele homem.
E eu esperava que fosse assim, porque Omar merecia pagar por sua mente doentia.
Começamos a jogar xadrez. Eu perdia propositalmente, mas fazia jogadas que demonstravam esforço intelectual.
Ajudava a organizar alguns documentos não confidenciais, sempre perguntando sobre negócios legais com um interesse fingido.
Ele gostava de explicar. Gostava de se ver como um magnata, não como um criminoso.
Às vezes, levava-me para pequenos passeios pelos jardins impecáveis da propriedade, mostrando uma vida de aparente normalidade e luxo — uma fachada que eu sabia ser lavada com sangue.
E então veio a minha chance, Eu já conhecia o bastante daquele escritório.
E havia algo ali que despertara meu interesse.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Quarto errado, Mafioso certo!