Cap.184
Eu tive finalmente a tão desejada chance de pegar minha chave para a liberdade quando Omar foi chamado para atender um telefonema urgente em outra sala. Ele saiu, deixando-me “absorta” em um livro, assim como eles pensavam.
Meus olhos correram para a escrivaninha. Eu sabia, de uma das vezes em que ele pegara um documento, que a gaveta superior do lado direito não estava trancada. E, dentro dela, eu tinha visto o cabo escuro de uma pistola, com um cilindro alongado na ponta — um silenciador.
O coração batia tão forte que achei que o som ecoaria pela sala.
Sem pensar, agi. Abri a gaveta e peguei a arma fria e pesada. Era mais compacta do que eu imaginava.
Olhei em volta, desesperada. Meu olhar caiu sobre uma pilha de livros grossos que eu havia separado antes.
Rapidamente, afastei dois deles, coloquei a pistola no vão e cobri-a. Fechei a gaveta no mesmo instante em que os passos de Omar retornavam pelo corredor.
Quando ele entrou, eu estava de pé, com a pilha de livros nos braços e a pistola atrás deles, entre minha barriga e o tecido da blusa.
— Vou levar esses para o meu quarto, se não se importar — disse, tentando disfarçar o tremor nas pernas. — Acho que vou passar a noite lendo.
Ele arqueou uma sobrancelha.
— Por que levar? Pode vir ler aqui amanhã. Terá bastante tempo. Essa mansão será sua e de Mathias.
— As noites… têm sido um pouco carentes — menti, desviando o olhar. — A leitura ajuda.
Um sorriso quase paternal — um gesto horrendo naquele rosto — cruzou seus lábios. Ele nem escondia mais quem era. Eu odiava o fato de ele se parecer com o meu Adon. Ninguém deveria ter aquelas feições, e aquele maldito era o último que deveria se parecer com ele.
— É só chamar Mathias. Ele pode lhe fazer companhia.
— Não! — a resposta saiu rápida demais. Eu me acalmei. — Quero dizer… não ainda. Depois do casamento. Quero que seja… especial.
Ele pareceu avaliar minha timidez fingida e assentiu, aprovando o que via como decoro.
— Como quiser. Boa leitura, então.
Saí do escritório com os livros, a arma escondida entre eles, pesando junto com meu pânico, culpa e poder.
Cada passo até meu quarto foi uma eternidade. Tranquei a porta e, finalmente, deixei a pilha cair na cama. Peguei a pistola. O metal estava frio, impessoal. Minhas mãos tremiam. Eu nunca havia disparado uma arma.
Mas segurar aquela morte em potencial me deu uma sensação terrível e clara: eu tinha uma opção. Era isso. Eu tinha que sair dali de alguma forma. Como eles podiam achar que eu iria me casar com meu agressor?
Guardei a arma debaixo do colchão e, agora… era só esperar o dia do casamento enquanto pensava em como fazer tudo sem que ninguém descobrisse.
Finalmente, o dia chegou.
O casamento seria no palácio de festas, um lugar obscenamente luxuoso, cheio de cristais e flores brancas. Poderia ter sido o dia dos meus sonhos e, pode ter certeza… se tudo fosse de acordo com meu plano, eu venceria.
Eu ainda estava no meu quarto, cercada por estranhas que me transformavam em um boneco: penteavam meu cabelo, ajustavam o vestido de noiva de renda pesada e cauda longa, aplicavam maquiagem.
No espelho, uma estranha me encarava. Olhos delineados, lábios vermelhos, uma imagem etérea de noiva.
Mas, por baixo das várias camadas de tecido e anáguas, presa à minha coxa com fitas que eu mesma improvisara, estava a pistola.
Seu peso contra minha pele era meu único lembrete real.
Minhas mãos tremiam levemente enquanto as arrumadeiras trabalhavam. Uma delas sorriu, achando que era nervosismo de noiva.
Omar entrou no vestiário, impecável em um terno escuro.
Pela primeira vez desde que revelara seu rosto, continuava sem chapéu. Sua semelhança com Adon, sob a luz forte e preparado para a ocasião, era de cortar o coração.
Era como ver um Adon do futuro, corrompido e triunfante, vindo me entregar ao meu algoz.
— Está deslumbrante, Simone — disse ele, usando o nome que eu odiava. — Pronta para reivindicar seu lugar?
— Sim — menti, a voz quase sumindo.
— Há outra surpresa — continuou, os olhos brilhando com malícia. — Sua família por parte de mãe, os Bertans, estará no grande palácio. Finalmente poderão conhecer a herdeira que pensavam perdida. Depois de hoje, você não será mais Selene Jackson, a órfã. Será Simone Felix-Bertans. A filha encontrada, a única herdeira de um grande império, onde sua mãe era filha única e legítima.
Mas a imagem da Madre Clara, do tio Arthur, da minha mãe biológica — todas vítimas daquele homem — apagou qualquer dúvida.
Segui até a porta e a tranquei, pegando a chave. Naquele momento… se eu amarelasse, nada mais importaria. Se eu falhasse, não falharia só comigo, mas com todas as pessoas que me acolheram.
— Selene… o que está fazendo?
Não respondi por um longo instante. Apenas o encarei, deixando a máscara cair por completo. Então puxei a arma de dentro do vestido.
O movimento foi desajeitado, a renda atrapalhando, mas a pistola emergiu, apontada para ele, minha mão trêmula, porém determinada.
O olhar de Omar passou da surpresa para uma compreensão gelada e, depois, para algo que se assemelhava a um respeito perverso. Ele não avançou. Não gritou. Apenas ficou parado, seus olhos — os olhos de Adon — fitando os meus por cima do cano da arma.
— O que você está pensando em fazer? Sabe que não vai conseguir sair daqui assim, certo?
— Omar… pegue seu telefone! — ordenei. Ele obedeceu, com as mãos erguidas.
— Não tem medo de eu conseguir te parar?
— Omar… eu tenho a arma. Independentemente do que você fizer, se seus homens vierem, você morre. Eu não me importo se vou sair viva ou não, mas vou tentar.
— O que você quer?
— Se quer sair vivo, diga aos seus homens que eu vou em um carro separado. Que preciso ser levada primeiro para o casamento.
— Selene… — ele riu, cético. — Que bobagem é essa? Só para ir sozinha em um carro você aponta uma arma para mim? Você sabe que, ao fazer isso, muita coisa muda, certo? Eu não tolero—
— Faça o que estou mandando ou eu te mato! Quem está em posição de exigir agora? — perguntei, recuando. Eu não queria que ele tentasse tomar a arma da minha mão. E ele não tentaria. Se desse um passo…
Ele começou a ligar. Os homens precisavam ouvir sua voz para obedecer, e eu sabia disso.
— Tudo bem… se é só isso que você quer, não deveria ter apontado a arma. Você já tinha alguns benefícios, afinal… Você já está casada com Mathias. Hoje será apenas um anúncio. Por isso… vou levar em consideração o que você quer.

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Os comentários dos leitores sobre o romance: Quarto errado, Mafioso certo!