Cap. 21
— Falando nisso… amanhã eu começaria a trabalhar na empresa dele — começou Rose, mas ele a interrompeu, puxando-a para longe de Selene.
— O que está fazendo? — perguntou ela, confusa.
— Apenas não fale quem eu sou perto de estranhos — respondeu ele, a voz firme, fria, sem espaço para discussão.
Ela engoliu em seco, os olhos arregalados.
— Eu disse que ia começar a trabalhar na sua empresa… — arriscou, ainda nervosa, encarando Selene, mas agora Selene não podia mais ouvir. — Ela não sabe que você é do grupo Félix? Não sabe que você é o presidente? Ou… que você também é da máfia?
— Não é da sua conta — disse ele, seco. — Agora, vá para casa.
Rose apenas assentiu, sem protestar, e se retirou.
Sua atenção voltou inteiramente para Selene, que agora o encarava de canto de olho, curiosa e desconfiada.
— Continue comendo — ordenou, com a mesma firmeza de sempre, deixando implícito que, por enquanto, não haveria mais interrupções.
Ela obedeceu, recostando-se na cadeira, ainda desconfiada, mas agora menos tensa. Ao final da refeição, ele nem sabia se ela conseguiria andar por conta própria depois de comer tudo aquilo.
Ele subiu no carro, mantendo seu costumeiro silêncio. Selene entrou devagar, ainda ofegante, o rosto levemente corado, como se o almoço tivesse sido um esforço físico. Ela se acomodou, e ele não pôde deixar de notar a leveza com que mexia nos cabelos enquanto ajustava o cinto.
— Uau… eu… eu comi tudo — disse ela, rindo nervosamente, ainda recuperando o fôlego. — Nunca tinha provado nada assim antes.
— Você é uma órfã muito cara — disse ele, cruzando os braços. — Mas meu amigo rico pagou tudo.
Ela arregalou os olhos, surpresa, e virou-se para Axel, murmurando com culpa:
— Desculpa, senhor Axel…
— Não fale com outros homens — interrompeu ele, sério, sem levantar o olhar. — Eu não deixei você dirigir a palavra a ele.
O silêncio tomou conta do carro enquanto seguiam viagem. Selene parecia perdida em pensamentos, mexendo levemente no saco de doces que ainda segurava com cuidado. Ele observava cada gesto, cada expressão, analisando.
— Os doces ficam comigo — disse ele.
— Você tem que pagar — retrucou ela, brincando.
Ele riu, cético.
— Brincadeira — disse ela, sorrindo. — Pode ficar com eles.
O sorriso dela era leve, genuíno, e algo nele relaxou por um instante. Então ele perguntou, como quem buscava assunto para disfarçar a tensão criada:
— Você que fez?
Ela confirmou com a cabeça — um gesto simples, mas carregado de orgulho silencioso. Em seguida, cuidadosamente, embrulhou os doces em um saco de papel e entregou a ele:
— Não se entupa de doces, faz mal — disse, piscando com um sorriso de orelha a orelha. — Nunca vi um homem tão grande gostar de doces.
— Eu não disse isso — ele respondeu, calmo, relaxando com a sacola de doces sobre o colo.
A viagem continuou, e ele enviou uma mensagem para Axel:
“Faça o trajeto mais longo que você conseguir. Quero um pouco mais de tempo para investigar algo.”
Axel o encarou por cima do ombro e bufou.
“Investigar! Tá se vendo!” — pensou, irritado. Mas, como havia decidido por conta própria dirigir para Adon, só podia obedecer.
O carro seguia silencioso pela estrada. Axel manteve as mãos firmes no volante, olhando de vez em quando pelo retrovisor. Seu irmão mais velho não estava fazendo ou dizendo nada — apenas sentado, com aquela concentração incorruptível, como se quisesse guardar energia.
Ele não perguntou o motivo; sabia que Adon raramente explicava as próprias intenções, mas ainda assim estava intrigado.
Selene, ao lado de Adon, olhava pela janela com a testa franzida. Reconhecia os prédios, as ruas… até que deixou de reconhecer.
— Esse caminho não é o de antes… — murmurou, apertando o saquinho de doces no colo. Seu coração começou a bater mais rápido. — Onde vocês estão me levando?
Axel lançou um olhar rápido pelo espelho.
— Relaxa, mocinha. Ele só gosta de pensar enquanto eu dirijo, não vamos a nenhum lugar específico — respondeu Axel, enquanto Adon mantinha os olhos voltados para fora.
Selene se encolheu, insegura, voltando o olhar para a janela. O silêncio do carro era quase sufocante, até que um som baixo o quebrou.
Axel franziu o cenho e virou a cabeça ligeiramente.
Adon… bocejou.
— O quê? — Axel quase riu, confuso. Ele observou o irmão ajeitar o colarinho, recostar-se com os olhos ainda abertos, mas cansados, como se um peso de semanas caísse de uma só vez sobre ele.

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