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Quarto errado, Mafioso certo! romance Capítulo 310

Cap.117

O Sol Após a Tempestade

O sol da manhã entrava pelas frestas da cortina, desenhando linhas douradas no chão do quarto. Katleia dormia profundamente, enrolada no edredom, os cabelos loiros castanhos espalhados pelo travesseiro como um leque de seda. Sua respiração era lenta, pacífica, o sono de quem não tinha pesadelos.

Átila ficou ali por um momento, observando-a. A luz do sol iluminava o contorno de seu rosto, a curva de seus lábios entreabertos, o movimento suave de seus cílios. Ele pensou em beijá-la, em dizer alguma coisa, em ficar.

Mas não podia.

Com um movimento silencioso, levantou-se da cama e vestiu a calça jeans velha que ainda estava úmida da noite anterior.

A camisa fina de algodão grudava no corpo, lembrança da chuva que não queria secar. Pegou o celular no bolso, ou o que restava dele. A tela estava preta, manchada, os botões não respondiam.

— Afogado — murmurou para si mesmo, com um sorriso amargo.

Saiu do quarto sem fazer barulho, fechando a porta com um clique suave.

No corredor, o silêncio era quebrado apenas pelo rangido distante da madeira e pelo canto de um pássaro lá fora. A mansão acordava devagar, como uma criatura preguiçosa saindo da toca.

Adon estava saindo do próprio quarto quando Átila passou por sua porta. Ele segurava um maço de roupas dobradas — calças, camisas, meias — todas escuras, todas impecáveis. Seus olhos, ainda inchados de sono, se arregalaram ao ver o irmão no corredor.

— Você ainda está aqui? — Adon perguntou, estendendo as roupas. — Toma. Veste isso. Você parece um mendigo que saiu de um naufrágio.

Átila pegou as roupas, sentindo o tecido seco e macio sob os dedos.

— Obrigado.

— Temos a mesma medida — Adon disse, encostando-se na parede. — As minhas servem em você. Use à vontade. Mas me conta uma coisa...

Ele arqueou uma sobrancelha, a voz baixando para um tom mais sério.

— O que você anda fazendo que está tão sumido? Você desaparece por dias, ninguém sabe onde está, o celular sempre desligado...

— Cuidando dos Bertans — Átila respondeu, a voz calma demais.

Adon franziu o cenho.

— Cuidando dos Bertans? Isso é problema, Átila. Problema grande. Para de mexer nesse vespeiro. Você já está fora do grupo, já renunciou a tudo. Fica quieto. Some de verdade, se for preciso. Mas não provoca eles.

— Estou só cuidando das últimas coisas — Átila disse, e havia algo em sua voz que Adon não conseguiu decifrar. Uma finalidade. Uma despedida.

Adon suspirou, passando a mão no rosto.

— Troca essa roupa. Vai. Depois a gente conversa.

Átila seguiu pelo corredor em direção ao banheiro, mas parou antes de entrar. Virou-se para Adon, e um sorriso, raro, genuíno, quase infantil, surgiu em seus lábios.

— Em breve teremos boas notícias — disse.

Adon arqueou uma sobrancelha.

— Boas notícias? Do que você está falando?

— Você vai ver.

Antes que Adon pudesse perguntar mais, Átila já havia desaparecido dentro do banheiro.

Adon ficou ali por um momento, processando, Mas ele não conseguia identificar o quê seria.

Foi então que lembrou.

— Falando nisso — ele chamou, a voz ecoando pelo corredor. — Seu celular quebrou. Parece que se afogou no seu bolso. Não serve mais para nada. Quer que eu compre um novo? Já que você está falido...

Do lado de dentro do banheiro, a voz de Átila veio abafada:

— Não precisa.

Vinte minutos depois, Átila saiu do banheiro vestindo uma calça escura e uma camisa de botão preta. As roupas de Adon serviam perfeitamente, o tecido macio, o caimento impecável. Desceu as escadas em silêncio, passou pela sala vazia, saiu pela porta da frente.

O sol estava alto agora, a chuva havia dado lugar a um céu limpo e azul. As poças nos caminhos refletiam a luz como pequenos espelhos.

Átila caminhou até a garagem, pegou o carro de Adon.

O trajeto foi curto, silencioso. Ele estacionou, entrou, comprou o remédio sem olhar nos olhos da atendente. O pacote pequeno pesava uma tonelada no bolso.

Voltou para a mansão, subiu as escadas, entrou no quarto de Katleia.

Ela ainda dormia.

Com um cuidado infinito, Átila colocou o remédio sobre a cômoda ao lado da cama. Ficou ali por um segundo, dois. Pensou em deixar um bilhete. Pensou em acordá-la. Pensou em ficar.

Não fez nada.

Apenas saiu.

A porta se fechou atrás dele com um clique suave, e Katleia nem se moveu.

Na sala de estar, Adon tomava café quando o celular vibrou sobre a mesa. O número era desconhecido, uma sequência de dígitos que ele não reconhecia.

Atendeu.

— Adon Felix.

— Senhor Felix — a voz do outro lado era tensa, apressada, carregada de uma urgência que fez Adon endireitar a postura. — Sou um dos soldados do segundo território. Preciso falar com o senhor Atila, mas não estamos conseguindo entrar em contato. É urgente.

Adon franziu o cenho.

— Fala, eu sou o responsável pelo segundo território.

— é os Bertans... — a voz do homem falhou. — Os Bertans capturaram um dos nossos. Um dos soldados de elite que estava em missão ontem. Ele foi levado esta madrugada.

— CALA A BOCA E ME ENCONTRA LÁ! — Adon rugiu. — A gente limpa. Depois pensa no resto. Átila acabou de sair de novo e acho que não vai voltar tao cedo, o celular dele está comigo. Não temos tempo.

O silêncio se alongou.

— Mas que porra... — Axel murmurou, derrotado. — Eu deveria ter ido embora antes. Devia ter pego o primeiro voo e sumido. Agora tô aqui, nessa merda, por sua causa.

— vou te buscar! Esteja esperando.

A linha foi encerrada.

O trajeto até o covil foi feito em silêncio. Adon dirigia o carro com as mãos firmes no volante, os olhos fixos na estrada vazia. O sol brilhava lá fora, irônico, indiferente ao caos que se aproximava.

Axel estava no banco do passageiro, as pernas inquietas, os dedos tamborilando no joelho. Uma submetralhadora descansava entre seus pés, o metal frio brilhando sob a luz do sol. No banco de trás, duas malas pretas continham o resto do arsenal, pistolas, munição, facas, luvas, sacos de lixo industriais.

— Quantas pessoas você acha que estão lá? — Axel perguntou, a voz baixa.

— Não sei. O Átila nunca disse.

— Ele nunca diz nada. Esse desgraçado vai ser a morte da gente.

Adon não respondeu.

A estrada de terra deu lugar a paralelepípedos antigos, cobertos de musgo e folhas secas. As árvores altas se inclinavam sobre o caminho como guardas silenciosos, suas sombras criando um túnel sombrio.

O prédio abandonado surgiu no final da estrada. A fachada cinzenta, as janelas quebradas, as portas empenadas. Parecia um esqueleto de concreto esquecido pelo tempo.

Adon estacionou o carro atrás de uma pilha de entulho, escondendo-o da vista. Os dois desceram em silêncio, as armas nas mãos.

— A porta lateral — Adon disse, apontando.

Caminharam até a entrada, os passos abafados pela grama alta e pelo musgo. A porta de metal estava trancada, mas as dobradiças pareciam novas demais para um lugar abandonado.

Adon bateu. Três batidas rápidas, uma pausa, duas batidas lentas.

Silêncio.

— O código não funciona — Axel murmurou, os olhos estreitados.

— Tenta de novo.

Adon repetiu o padrão. Nada.

— Isso está errado — Axel disse, a mão fechando-se ao redor da arma. — Devia ter alguém aqui. Os soldados do Átila nunca abandonam o posto.

— Vamos entrar.

Adon empurrou a porta. Ela rangeu, mas cedeu, destrancada.

O corredor de entrada estava escuro, mas havia luz no fundo. Luz demais. Quando atravessaram a última porta de ferro, o que viram fez ambos congelarem.

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