Cap.125
A Coroa e o Fardo
A mansão Felix estava silenciosa naquela noite. As luzes do jardim desenhavam sombras alongadas na grama recém-cortada, e o vento frio balançava as cortinas das janelas do andar superior como fantasmas indiferentes.
Adon estacionou o carro na entrada circular e ficou ali por um momento, os dedos ainda no volante, os olhos fixos nas portas de madeira entalhada que se abriam para o saguão principal.
A casa onde crescera. A casa que um dia fora cheia de vozes, discussões, passos apressados de seguranças e o barulho constante dos negócios da família.
Agora, estava vazia e estranha, e nem ele podia imaginar que uma casa que para ele sempre foi quieta demais, pareceria um mausoléu mesmo com todo seu luxo.
Havia empregados, seguranças, o vaivém silencioso de uma casa que ainda respirava.
Mas a alma do lugar... a alma havia se dispersado. Axel estava em algum lugar nos céus, cruzando oceanos em direção a uma vida que ele ainda não sabia se queria. Átila estava em uma cela fria, cumprindo a pena por crimes que ninguém além dos Felix conhecia.
E Alex...
Adon suspirou, desligou o motor e saiu do carro.
Os passos ecoaram no mármore do saguão quando ele entrou. A governanta se aproximou, fez uma reverência discreta, e indicou a direção da biblioteca. O patriarca estava lá. Sempre estava lá ultimamente.
Alex Felix estava sentado em sua poltrona habitual, perto da lareira apagada, um livro aberto no colo que ele não lia.
O rosto, iluminado pela luz fraca do abajur, parecia mais velho do que Adon lembrava.
Ele ergueu os olhos quando Adon entrou, e algo, um lampejo de calor, de orgulho talvez, brilhou em seu olhar antes de se apagar, substituído pela serenidade controlada de quem aprendeu a não demonstrar fraqueza.
— Parece que, por um tempo, só vai sobrar você para me visitar agora, não é? — Alex disse, a voz baixa, quase casual.
Adon parou em frente à poltrona. Não sentou. Apenas ficou ali, de pé, as mãos nos bolsos, a postura ereta.
— Boa noite, pai.
Alex baixou a cabeça. Um suspiro escapou de seus lábios.
— Axel se foi — continuou, mais para si mesmo do que para o filho. — Átila está preso. E você?
— Estou cuidando de tudo como sempre. — Adon respondeu, a voz firme. — Apesar de estarem longe, logo estarão de volta.
— Você acredita nisso?
— Preciso acreditar.
Alex o encarou por um longo momento, os olhos estreitados.
— Hmm.
Adon se moveu, finalmente, puxando uma cadeira e sentando-se de frente para o pai. O couro rangeu sob seu peso.
— Que tal cuidarmos do que vem a seguir? Logo teremos eleições. Você agora está em outro patamar.
— Outro patamar — Alex repetiu, como se testasse o sabor das palavras. — O grupo Felix já é famoso. E o Átila... — ele fez uma pausa, um sorriso amargo surgindo em seus lábios — o Átila deixou a marca dele. Isso vai ajudar também.
— Vai.
— Afinal, a família Felix agora está ligada a atividades de solidariedade. Canis clandestinos, abrigos de animais, projetos sociais. — Alex riu, um som seco, sem humor. — Quem diria que o filho mais sombrio seria o responsável por limpar nossa imagem? Atila é completamente sinico em sem pudor quando quer mentir, quem ver ele preso por causa de uma mulher, mal conseguiria acreditar no quão ele é manipulador.
Adon não respondeu. Apenas esperou.
— Átila... — Alex continuou, a voz perdendo o tom sarcástico, ficando mais baixa, quase vulnerável. — Ele seria um ótimo Don. Melhor do que eu. Melhor do que você, talvez.
— Talvez — Adon concordou. — Mas ele não quis. E agora, independente disso, por enquanto tenho algumas coisas para cuidar a mais por causa dele.
— Que coisas?
Adon inclinou-se para frente, os cotovelos apoiados nos joelhos.
— Durante esses dias que ele está longe, vou ter que descobrir uma maneira de impedir que aquele monstro — o padrasto da Katleia, ou tio, ou seja lá o que ele for, continue perseguindo ela, não posso me dá o luxo de descansar agora.
Alex arqueou uma sobrancelha.
— ainda com esse dilema do homem que abusou dela quando criança?
— Esse mesmo. não vai parar até encontrá-la, isso já sabemos, mas o dilema maior é, como um homem simplório desses consegue se esconder de nós, tem alguém muito, mas muito grande por trás e eu tenho medo que essa pessoa tenha poder suficiente para pegar Katleia debaixo do meu nariz, eu... sinceramente, nunca tive medo de uma missão, como dessa. Porque nas outras, estava tudo bem falhar, mas dessa vez... se eu falhar, é o fim de um casamento, de um irmão... tudo isso está começando a pesar desde cedo.
— E o que você pretende fazer?
— Monitorar. Onde ela for, eu vou ter olhos. A casa dela, os lugares que frequenta, a universidade quando ela voltar a estudar. Tudo monitorado, mas o problema maior é não poder usar seguranças na mansão ponte, infelizmente não podemos forçar isso e ver ela se machucar com qualquer surto, e isso vai tornar as coisas mais difíceis.
— Isso não é vida, Adon. Para ela nem para você.
— É o que temos.
Alex suspirou, passando a mão pelo rosto.
— A prisão do Átila... foi discreta?
— Ninguém ficou sabendo — Adon confirmou. — Para todos os efeitos, ele está em uma viagem de negócios de emergência. Vai cumprir a pena em silêncio e voltar como se nada tivesse acontecido.
— E a Katleia, vai contar a ela?
— Não sabe de nada. Não sabe que foi ele. Não sabe onde ele está. Não sabe de nada, e pior... que ela ajudou a diminuir a pena dele. — Adon sorrio pensativo, — No fim, parece que eles estão destinados, mas esse segredo que ele quer manter, e quando isso explodir?
— E você acha que isso é certo?
Adon o encarou.
— Certo ou errado, pai, não é a questão. A questão é manter a paz. Por enquanto, funciona assim.
O silêncio se alongou. O relógio na parede marcava os segundos com um tique-taque hipnótico.
Alex mudou de assunto.
— Como está Omar?
Adon deu de ombros, um gesto brusco, quase agressivo.

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Os comentários dos leitores sobre o romance: Quarto errado, Mafioso certo!