Cap. 126: O Medo e a Fama
Os dias se arrastavam lentos, pesados, grudando em Katleia a cada hora que passava sem notícias dele.
Uma semana.
Sete dias desde que ela acordara com o lado da cama vazio e frio. Sete dias desde que encontrara a caixa do anticoncepcional caída debaixo da cama. Sete dias desde que engolira o comprimido com os dedos trêmulos, sentindo o gosto amargo da própria irresponsabilidade na língua.
Sete dias desde que Átila sumira, e aquela dúvida vinha consumindo sua paz.
— Onde você está, Átila? — sussurrava para o teto do quarto todas as noites, como se ele pudesse ouvi-la.
Ninguém respondia.
Adon dizia que era uma viagem de negócios. Uma viagem de emergência.
— Ele volta logo.
Repetia sempre com o mesmo tom vazio, desviando o olhar.
Selene acreditava. As meninas também.
Katleia não.
Mas ela não podia dizer o motivo.
Não podia admitir que sentia que ele mentia. Que o conhecia melhor do que todos ali e sabia reconhecer quando Átila escondia algo.
E, no fundo, havia uma sensação sufocante de que ele não estava bem.
Enquanto os dias passavam, as meninas voltaram às próprias rotinas. Gildete trabalhava. Mima estudava. Maju se preparava para o vestibular com uma determinação que Katleia nunca tinha visto antes, mergulhada nos estudos do último ano do ensino médio.
Selene dividia o tempo entre a mansão dos Felix e a Casa da Ponte, equilibrando Adon e as amigas com a habilidade natural de alguém que nascera para cuidar dos outros.
E Katleia...
Katleia escrevia.
Escrevia como se o teclado fosse uma âncora. Como se as palavras pudessem mantê-la presa ao mundo enquanto sua mente flutuava em direção a Átila.
Escrevia sobre amor e perda. Sobre espera e desespero. Sobre personagens parecidos demais com eles dois.
O novo livro crescia página por página, capítulo por capítulo, e ela se perdia dentro dele sempre que a saudade ameaçava engoli-la.
Porque, no livro...
Átila voltava.
Mas havia um pensamento que retornava todas as manhãs, silencioso e cruel.
E o remédio? Será que fez efeito?
Katleia observava o próprio corpo no espelho do banheiro, procurando sinais. Uma curva diferente. Um inchaço discreto. Qualquer coisa.
Nada.
Os seios permaneciam normais. A barriga, lisa. Nenhum enjoo. Nenhum cansaço excessivo. Nenhum dos sintomas que os sites sobre gravidez listavam em letras enormes — sites que ela pesquisava compulsivamente.
— Pode ser que tenha dado certo — murmurava para o próprio reflexo enquanto passava creme no rosto. — Eu não estou grávida.
Mas sua mão tremia levemente ao segurar o pote.
E, às vezes, quando a luz do espelho criava sombras suaves sobre seu rosto, Katleia se pegava pensando:
E se estivesse?
E se Átila voltasse correndo quando descobrisse?
— Não! — bateu na própria bochecha, o tapa leve ecoando pelo banheiro vazio. — Abandone esses devaneios, Katleia. Agora!
O tapa não adiantava.
O pensamento retornava na manhã seguinte.
E na outra.
E na outra.
Os dias seguiram assim, mergulhados em paranoia, até aquela tarde chuvosa em que o e-mail chegou.
Katleia estava no quarto, enrolada em um cobertor, com o laptop equilibrado nos joelhos.
A tela brilhou com a notificação, e seu coração disparou, esperando — sempre esperando — que fosse ele.
Não era.
“Prezada Kat X, temos a honra de convidá-la para o lançamento da antologia ‘Vozes do Silêncio’, que contará com seu conto inédito.
O evento será realizado no próximo sábado, no auditório da Fundação Cultural de Monselha. Haverá sessão de autógrafos e entrevistas para a imprensa especializada. Sua presença é fundamental.”
Ela leu o e-mail uma vez, Duas, Três.
O medo veio primeiro.
Um aperto no peito. O coração acelerado. A lembrança dolorosa das últimas vezes em que se expôs ao público.
— Não vou — decidiu em voz alta, fechando o laptop com um clique seco. — Não vou.
Mas o desejo de reconhecimento, aquela pequena chama secreta que alimentava dentro de si, recusava-se a morrer.
Era tudo o que ela queria, Ser uma autora famosa e isso estava vindo até ela.
No fim, mostrou o convite para Selene.
E se arrependeu imediatamente.
— Você vai — Selene declarou, em tom definitivo, com as mãos apoiadas nos quadris.
Estavam todas reunidas na sala da Casa da Ponte.
Gildete fazia crochê, uma manta para Ryuk. Mima lia um livro sobre política internacional. Maju revisava exercícios de matemática.
— Não vou — Katleia insistiu.
— Vai, sim.
— Selene...
— É sua chance, Katleia! — Selene sentou ao seu lado, pegou suas mãos e as apertou com força. — Sua chance de mostrar para todo mundo que você é mais do que aqueles e-mails de ódio. Sua chance de brilhar de mostrar que você está crescendo.
— E se alguém...
— Nós vamos com você. — Gildete ergueu os olhos do crochê. — Todas nós.
— É um exército — Mima confirmou, sem desgrudar os olhos do livro.
— Um exército de doidas — Maju completou, sorrindo.
Katleia olhou para cada uma delas. Selene, determinada. Gildete, prática. Mima, enigmática. Maju, esperançosa.
— E se eu passar vergonha? — sussurrou.
— Você não vai passar vergonha — Selene respondeu. — Você é a Kat X. A mulher que transformou dor em arte. E se alguém tentar te diminuir, elas vão ter que passar por cima de mim primeiro.
— De nós — Gildete corrigiu.
Katleia respirou fundo.
— Eu vou.
— Parece que vocês acharam solução para todos os problemas que existir na porrada, ainda mais bem que sou sensata. — Mima disse.
O auditório da Fundação Cultural estava lotado. Luzes suaves iluminavam o palco, onde uma mesa comprida aguardava os autores. Repórteres se aglomeravam na área reservada à imprensa, e o murmúrio das conversas preenchia o ambiente como o zumbido de abelhas ocupadas.
Katleia estava nos bastidores, as mãos geladas, o coração disparado.
— E se eu esquecer o que dizer? — perguntou para Selene, que ajustava o colar de pérolas no pescoço da amiga.
— Você não vai esquecer.
— E se eu gaguejar?
— Vai parecer fofo.
— E se...
— Katleia — Selene a interrompeu, segurando seu rosto entre as mãos. — Você sobreviveu a coisas muito piores do que uma entrevista. Você é forte. Você é corajosa. E eu estou aqui. Nós estamos aqui.
— Todas nós — Gildete apareceu ao lado, com Mima e Maju atrás.
— Incluindo um batalhão de seguranças. — Adon comentou, surgindo do fundo do corredor. Ele usava um terno escuro, a expressão séria, mas havia um orgulho discreto em seus olhos.
— Adon? O que você está fazendo aqui? — Selene perguntou, surpresa.
— Alguém precisa garantir que minha esposa e suas amigas não arrumem confusão. — Ele deu de ombros. — Além disso, achei melhor colocar meus homens ao redor. Por segurança.
— Seus homens estão de terno? — Maju perguntou, espiando o corredor.
— Estão. E armados. Mas ninguém precisa saber disso.
— ah... claro, em uma bienal juvenil ninguém vai perceber mesmo. — Selene disse com deboche.
— é bom que já intimida quem tentar qualquer gracinha, não acha?
— você parece estar com mais medo que a própria Katleia.
Katleia sentiu um aperto no peito, não de medo, mas de gratidão.
— Obrigada, Adon.
— Não me agradeça. Agradeça ao Átila. Se ele soubesse que eu deixei você vir sozinha para um evento desses, ele me matava.
O nome dele pairou no ar. Ninguém comentou.
Katleia desviou o olhar sentindo o coração apertar, não adiantava perguntar, a resposta era sempre a mesma.
As luzes a cegaram por um instante quando subiu ao palco. O público era uma massa indistinta de rostos, câmeras, flashes. Ela sentou na cadeira indicada, ajustou o vestido, um azul marinho que Selene escolhera, que deixava seus ombros à mostra e caía suavemente sobre seus joelhos.

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Os comentários dos leitores sobre o romance: Quarto errado, Mafioso certo!