Cap.130
O Silêncio de Trinta Dias
Para Katleia, o silêncio da mansão havia se tornado uma presença física.
Faziam exatamente sete dias que a energia caótica e vibrante de Selene se mudara para a nova casa com Adon.
Uma semana inteira sem o bater de portas intempestivo, sem os comandos de sargento e sem as risadas que, mesmo em meio à iminência da guerra com os Bertans, traziam um eco de humanidade para os corredores de mármore.
E fazia um mês. Trinta dias exatos, contados no relógio biológico da saudade e da angonia, desde a última vez que ela vira Átila.
Trinta dias desde que o cheiro de chuva e terra molhada dele havia invadido seu quarto no meio do apagão, deixando marcas na pele e uma promessa velada de proteção que agora parecia diluída na distância.
Katleia encarava a tela do celular com os olhos ardendo.
Os dedos, frios e trêmulos, pairavam sobre o teclado. A caixa de entrada era uma ferida aberta.
As mensagens de sua mãe acumulavam-se como detritos de um passado que ela tentava, sem sucesso, enterrar sob pilhas de livros de psicologia.
"Eu estou morrendo, Katleia." "Você se vendeu para esses monstros e esqueceu de quem te deu a vida?" "Eu preciso de dinheiro vivo. Não me faça ir até aí."
A exaustão quebrou a barreira do medo.
Um estalo de lucidez fria e raivosa cortou a névoa de pânico que a acompanhava há dias. Com movimentos rápidos, quase violentos, ela digitou:
"Eu não tenho mais nada a ver com você. Não me procure mais. Esqueça que eu existo."
Ela pressionou "enviar". O caractere de confirmação subiu.
Katleia travou a tela e segurou o aparelho contra o peito, esperando o contra-ataque.
Esperou por cinco minutos, dez, meia hora.
O visor permaneceu escuro. Nenhuma resposta.
O vácuo digital, em vez de acalmá-la, fez com que os pelos de seus braços se arrepiassem. Aquela ausência de réplica não parecia uma desistência, parecia o recuo de um predador calculando o salto.
Para desviar o foco do próprio peito opresso, Katleia passou a observar a dinâmica da casa. Ela achava que estava sendo invisível, que seus sorrisos forçados durante o almoço enganavam o ecossistema da mansão.
Mas ela estava errada. No terceiro dia após a saída de Selene, a ficha caiu de forma gradual.
Em uma terça-feira, Gildete não foi ao mercado no horário de costume, alegando que "as pernas doíam", permanecendo sentada na sala de estar com um crochê que mal avançava, os olhos sempre atentos à escada, atenta a cada movimento de Katleia.
Na quarta-feira, Maju ligou dizendo que a última aula da escola havia sido cancelada e passou a tarde inteira sentada no tapete do quarto de Katleia, tagarelando sobre bobagens da adolescência enquanto vigiava cada suspiro da amiga, tentando descobrir qualquer coisa, mesmo que ela dissesse que estava bem.
Na quinta-feira, William apareceu com a desculpa de conferir as fechaduras eletrônicas, mas permaneceu no jardim da frente até o anoitecer, olhando ao redor, analisando os comportamentos dela, parecia que aquela caçada estava indo longe o suficiente e estava ficando mais serio do que se podia imaginar.
Até mesmo Alex Felix, com sua aura etérea e imponente, havia passado duas vezes pela mansão naquela semana apenas para "tomar um café" e conversar amenidades quando ninguém estava.
Eles estavam fazendo um rodízio. Sem alarde, sem discursos e sem cobrar explicações, a família Felix e seus agregados haviam montado uma guarda invisível ao redor dela.
Ninguém a deixava sozinha por um único segundo, de forma que ela não conseguisse perceber.
Sentada na poltrona da biblioteca, com as pontas dos dedos traçando a capa de um livro técnico sobre traumas de infância, Katleia sentiu uma lágrima quente descer pelo contorno do nariz, após finalmente perceber o que estava acontecendo e deduzir que não era apenas coicidencia.
Nunca pensei que eles poderiam se importar tanto comigo, pensou, o peito contraindo-se em uma mistura de gratidão e uma culpa dilacerante. Mesmo sem eu dizer nada, mesmo eu sendo apenas uma estranha que caiu no meio do inferno deles... eles me protegem.
Aquela constatação tornava o segredo das mensagens ainda mais pesado.
A sensação de não querer trazer problemas, de não querer atrapalhar a relação de de Selene ou dar mais trabalho para homens que já carregavam o peso de um império nas costas. Ela resolveria aquilo. Tinha que resolver.
A sexta-feira amanheceu sob um céu cinzento, pesado, uma promessa de tempestade que sufocava o ar de Monselha. A escala invisível de proteção daquele dia apontava um nome: Guilhermina. Mima.
Selene estava na faculdade, enfrentando uma semana de provas finais.
Gildete precisara ir ao centro médico resolver uma consulta antiga de rotina, e Maju já estava confinada na escola desde as sete da manhã.
Na grande mansão, restavam apenas a quietude sepulcral dos cômodos e a silhueta silenciosa de Mima, que se movia pela cozinha como um espectro eficiente, organizando a prataria com passos que não faziam barulho no piso de granito.
Katleia estava em seu quarto, tentando focar em um artigo acadêmico, quando o celular na cabeceira vibrou.
O som curto ecoou como uma chicotada no quarto vazio.
Ela pegou o aparelho. Não era texto. Era uma imagem.
O d******d da foto completou-se em dois segundos.
O estômago de Katleia despencou em um abismo de gelo.
A foto mostrava Selene de costas, atravessando a faixa de pedestres em frente ao campus da faculdade, segurando uma pasta de couro.
A imagem fora tirada de dentro de um carro, através do para-brisa, a poucos metros.
Abaixo da foto, a mensagem de texto da mãe cortou qualquer possibilidade de defesa.
"Ela está tão bonita hoje, não está? Seria uma pena se algo acontecesse com essa menina tão cheia de futuro no meio do trânsito.
Eu cansei de brincar, Katleia. Eu quero o dinheiro vivo. Agora. Traga até a praça antiga do final da avenida central ou a próxima foto será da sua amiguinha em uma poça de sangue, se é assim que você quer jogar, saiba que todas as suas amigas estão na minha mira, para seu bem, faça o que eu te pedir, ou enfrente as consequências, nesse momento, Selene já está em nossas mãos e vamos pegar uma por uma até você aprender a me obedecer como minha filha.
O pânico que Katleia vinha reprimindo há semanas explodiu em suas glândulas.
A racionalidade sumiu, substituída pelo instinto animal de preservação daqueles que amava. Selene estava em perigo por causa dela.
Tudo por causa dela.
Com os dedos espasmódicos, ela respondeu de imediato:
"Não encoste nela. Eu vou levar. Vou levar dinheiro. Estou saindo."
Katleia abriu a gaveta do criado-mudo. Havia um envelope com uma quantia expressiva em dinheiro vivo que Átila havia deixado ali para suas despesas pessoais semanas atrás — uma quantia que ela nunca tocara. Ela pegou o maço de notas, enfiou dentro de um pacote de papel pardo e o pressionou contra a costela.
O medo era um motor cego. Ela não pensou. Não avaliou a segurança, não mediu as consequências. Em sua mente, cada segundo perdido era um centímetro a menos entre um para-choque e o corpo de Selene. Ela desceu as escadas de serviço nos fundos da casa, evitando a área principal onde Mima estava, e deslizou pelo portão lateral que William deixara encostado após a vistoria da manhã.
Ela correu. Mas, na pressa cega, o celular ficou para trás, esquecido sobre o lençol desfeito da cama.
Mima estava na cozinha terminando de fazer o almoço nem percebeu a saída repentina de Katleia.
Quando Katleia atingiu a calçada da avenida principal, o vento frio da tempestade que se aproximava bateu contra seu rosto.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Quarto errado, Mafioso certo!