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Quarto errado, Mafioso certo! romance Capítulo 325

Cap. 132

O Gosto de Ferro na Língua

A fumaça cinzenta que escapava do escapamento do jipe blindado de Adon misturava-se à névoa baixa da manhã, criando uma película fosca ao redor do perímetro do Complexo Penitenciário.

O concreto das muralhas, envelhecido e manchado pela umidade crônica, parecia reter o cheiro de suor, desespero e ferro que caracterizava aquele lugar.

Adon mantinha as costas largas apoiadas contra o capô de metal do veículo, os braços cruzados. Seus olhos esbanjavam uma calmaria fria, mas seus dedos tamborilavam um ritmo silencioso e impaciente contra o próprio bíceps.

Ele odiava prisões. Odiava a estética da submissão que aqueles muros impunham aos homens.

O rangido metálico do portão de ferro menor quebrou a monotonia do ambiente.

Por ele, uma silhueta alta e esguia emergiu.

Átila Felix caminhava com uma lentidão, uma expressão tão absolutamente despreocupada que fazia o uniforme cinza de detento parecer um terno de corte italiano desleixado.

Ele não havia feito questão de trocar de roupa antes de assinar a folha de soltura, os botões superiores da camisa de brim estavam abertos, expondo a pele do peito e o contorno das clavículas, e as mangas estavam dobradas até os cotovelos com uma indiferença quase insultuosa à burocracia do Estado.

Os cabelos escuros estavam desalinhados, caindo levemente sobre os olhos, mas a postura era a de um monarca retornando de uma breve viagem de negócios, e não a de um homem que acabara de passar semanas sob o teto do isolamento.

— Olha lá... como esperado isso foi só umas férias de luxo pra esse desgraçado. — Adon murmurou cético com a calma de Atila.

Adon o observou avançar. O contraste entre os dois irmãos era evidente, um era a rocha maciça, o outro, a lâmina afiada que cortava o ar sem fazer barulho.

“Eu não queria ver você indo preso,” Adon pensou, os cantos dos lábios esboçando uma rigidez quase imperceptível, “mas eu não ia perder a oportunidade de ver você sendo livre.”

Átila fixou os olhos em Adon.

Não houve abraços, nem saudações efusivas.

Entre os Felix, a sobrevivência era o único cumprimento necessário, sem despedidas, sem festa de chegada.

Ele reduziu o passo conforme a distância entre eles diminuía para pouco menos de três metros, os lábios prestes a se curvarem naquele sorriso cínico que costumava irritar os delegados e os Bertans na mesma proporção.

Foi nesse milésimo de segundo que o silêncio foi estraçalhado.

O celular de Adon, guardado no bolso interno do paletó, vibrou e tocou com um toque estridente, urgente.

O visor acendeu com o nome de Selene. Adon franziu o cenho, uma pontada de estranheza cruzando sua mente.

— Ué... Selene sempre tem o horário certo para me ligar.

Com um movimento rápido, Adon puxou o aparelho.

Ele olhou para Átila, que parara exatamente à sua frente, os braços pendendo ao longo do corpo. Sem quebrar o contato visual com o irmão como se dissessem juntos, algo está errado, Adon deslizou o dedo pela tela e pressionou o ícone do viva-voz.

— Selene, estou ocupado agora, aconteceu algo?

— Adon... socorro! Socorro! — ela parecia um animal ferido, um grito quebrado pelo choro, gaguejando em um desespero tão puro que a estática do alto-falante pareceu estalar com a força da dor. — Sequestraram a Katleia, por favor! Eles pegaram ela, Adon! A Mima... a Mima levou uma facada, e os gêmeos levaram ela para o hospital... Por favor, ache Katleia antes do pior! — ela implorou, gritando, o som de sua respiração hiperventilada ecoando pelo pátio de asfalto da prisão.

O mundo ao redor dos dois irmãos congelou.

Átila, que mantinha os ombros relaxados e a cabeça levemente inclinada em sua habitual pose de desdém, travou no lugar.

Seus olhos, antes semicerrados e frios, dilataram-se instantaneamente, as pupilas engolindo a íris escura. Suas cordas vocais travaram, impedindo que qualquer som, qualquer ar, saísse de sua garganta.

Naquele exato momento, ele sentiu uma pontada tão violenta, tão absurdamente física no centro do peito, que seus pulmões colapsaram por um segundo. era a sensação exata de ter a carne rasgada por um gancho enferrujado, como se um pedaço vital de seus órgãos internos estivesse sendo arrancado de seu corpo sem anestesia.

O gosto de ferro e bile subiu por sua língua, amargo e sufocante.

Adon empalideceu, os dedos apertando o celular com tanta força que o plástico da capa rangeu. — Selene, repete. Quem pegou a Katleia? Onde vocês estão?! — Adon exigiu, mas o viva-voz só devolveu o som de soluços descontrolados e o barulho de sirenes de ambulância ao fundo.

Átila deu um passo à frente. O movimento não tinha mais a elegância de antes, foi o passo pesado, desajeitado, de um homem que acabara de levar um tiro à queima-roupa. ele estendeu a mão e arrancou o celular dos dedos de Adon com uma violência que quase quebrou o aparelho.

— Selene! — O rugido de Átila saiu rasgando sua garganta, a voz rouca, trêmula, desprovida de qualquer controle. — Quem estava com ela?! Onde foi?!

— Átila...? Ceus... que bom que é você! — A voz de Selene do outro lado falhou, um sussurro assustado. — A mãe dela... a mãe dela estava chantageando a Kat. A Katleia tentou entregar dinheiro na avenida central... Os homens... os homens da van esfaquearam a Mima. Os gêmeos Bertans apareceram, eles pegaram um dos caras e salvaram a Mima, mas... a Katleia correu para dentro da favela, Átila! Ela entrou no labirinto da comunidade e sumiu! Os Bertans disseram que os homens da van não eram deles, eram de fora... Alguém contratou eles para pegar ela...

Átila não esperou o fim da frase. Ele arremessou o celular de volta no peito de Adon e virou-se em direção ao jipe.

Cada segundo que passava parecia uma gota de sangue que ele perdia. A imagem de Katleia, cruzou sua mente como um ferro em brasa.

— Átila, espera! Precisamos de um plano, e nem sabemos onde eles estão. — Adon tentou segurar o irmão pelo ombro, mas Átila girou o corpo com uma velocidade mortal.

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