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Quarto errado, Mafioso certo! romance Capítulo 346

Cap. 153

Átila enfiou as mãos nos bolsos da calça jeans surrada, o tecido áspero e manchado de cal parecendo de repente um fardo pesado demais. Ele a encarou, o maxilar travado e uma expressão de profundo desconforto pintada em suas feições habitualmente inabaláveis. O homem que outrora comandava salas cheias de generais e criminosos com um único olhar parecia agora um garoto pego em flagrante.

Katleia, percebendo a batalha interna que se travava na mente do estrategista, deu um passo à frente. O sorriso dela era luminoso, desprovido de qualquer ponta de malícia, apenas repleto de uma ternura leve e provocativa.

— Hoje eu pago para você, hum? — ela ofereceu, inclinando a cabeça para o lado.

Átila virou a cara abruptamente para o lado oposto da rua, soltando um estalo irritado com a língua.

— Que droga... — ele praguejou, a voz áspera de puro constrangimento. — Até um dia desses eu gastei cem mil em um vestido para você sem nem piscar, e agora eu estou aqui, fodido, ouvindo isso, eu mereço.

Katleia não conseguiu conter uma risada limpa. Ela adorava quando conseguia desarmar a pose de soberano dele.

— Eu ainda tenho ele guardado, sabia? — ela brincou, aproximando-se mais e cutucando o braço dele. — Quer que eu venda o vestido e te devolva o dinheiro em espécie para salvar o seu orgulho?

Átila voltou os olhos escuros para ela na mesma hora, faiscando uma indignação quase cômica.

— Nem se atreva! — ele rosnou, cruzando os braços. — Como você pode sequer cogitar recusar ou se desfazer de um presente meu? O que eu te dou é seu. Fim de papo.

Katleia apenas sorriu, achando graça da possessividade que nem a pobreza momentânea conseguia arrancar dele. Com um movimento firme, ela estendeu o braço e segurou a mão dele, entrelaçando seus dedos calejados e manchados de cinza aos dela, macios e limpos.

— Então vem! — ela disse, puxando-o de leve. — Hoje eu vou te tratar bem também. Você cuidou de mim o tempo todo, agora é a minha vez.

Átila olhou para as mãos unidas e depois para o caminho que ela indicava, pisando no freio com as botas gastas.

— Katleia... o que você pensa que está fazendo? — ele perguntou, desconfiado.

— Você já acabou o seu turno de qualquer forma, o muro está quase todo cinza. Só vem comigo — ela ordenou com uma autoridade que o pegou de surpresa.

Sem dar margem para mais reclamações, ela o arrastou dali. Átila, apesar de resmungar a cada três passos sobre como aquela situação era absurda, a seguiu so para fazer a vontade dela.

Ele era três vezes mais forte que ela, mas a força que o puxava não era física, era o magnetismo daquela mulher que ele simplesmente não conseguia contrariar.

Alguns quarteirões depois, após pegarem um táxi rápido que os levou até uma zona comercial mais nobre, os dois pararam exatamente em frente à vitrine imponente de uma loja de roupas de grife masculina.

O vidro espelhado refletia ternos sob medida, camisas de algodão egípcio e sapatos de couro italiano que reluziam sob as luzes embutidas.

Átila olhou para a fachada da loja, depois para as próprias roupas sujas de tinta, e deu um passo imediato para trás, tentando dar meia-volta no calcanhar.

— Mas nem com a puta que pariu que uma mulher vai pagar alguma coisa para mim em um lugar desses — ele declarou, a voz subindo um tom, o orgulho Felix batendo no teto. — Vamos embora daqui, Katleia.

Katleia segurou o braço dele com as duas mãos, ancorando-o no lugar com uma expressão de falsa indignação, ele nem teve coragem de lutar, a cada segundo que ela o segurava ele se segurava com medo de a machucar com seus movimentos bruscos como se ela fosse de porcelana.

— Nossa... você consegue ser ainda mais orgulhoso que o Adon, sabia? Que coisa feia.

— Orgulhoso? — Átila repetiu, ultrajado com a comparação, os olhos cravados nela. — O Adon é um cínico que gostava de ser bancado pela Selene só pelo prazer de ver ela gastar com ele. Eu sou homem, Katleia. Homem com "H" maiúsculo. Eu sustento, eu provejo. Eu não sou sustentado, nunca! É contra minha dignidade de homem, entendeu? Homem.

Katleia deu um passo para dentro do espaço dele, forçando-o a olhar diretamente nos seus olhos. O tom de voz dela suavizou, tornando-se uma carícia firme.

— Meu homem — ela corrigiu, a voz baixa e mansa. — E você vai mesmo recusar quando eu só quero te dar um presente? Átila, eu te conheço. Eu sei o quanto você é vaidoso, o quanto é meticuloso com cada peça de roupa que usa. Eu sei que você está se sentindo mal andando por aí assim, com esses trapos sujos, mesmo que não admita.

Átila desviou o olhar, a mandíbula contraída. Ela tinha tocado na ferida exata. Ele odiava a sensação de desalinho, odiava parecer vulnerável.

— Mas... se você quiser ir vestido exatamente assim para comer comigo no restaurante, tudo bem — ela continuou, soltando o braço dele e dando de ombros com um sorriso travesso. — Eu te levo do jeito que está. Vamos entrar no restaurante fino com você cheirando a cal e tinta. O que me diz? Eu não vou me importar, mas... todos conhecem a cara do Felix.

Átila olhou para a própria camiseta furada, imaginando a cena de entrar em um ambiente requintado daquele jeito ao lado dela, que parecia uma boneca de porcelana em seu vestido claro. O choque de realidades atingiu o ápice do ridículo na mente dele.

— Nem ferrando — ele resmungou entre dentes.

Com um suspiro derrotado, mas com os ombros erguidos para manter o resto de dignidade que lhe restava, Átila segurou a maçaneta da porta de vidro da grife e a empurrou, entrando na loja com ela.

Katleia estava radiante. A animação que corria por suas veias parecia ter apagado, mesmo que temporariamente, as cores pálidas do cansaço em seu rosto.

Ela parou no centro da loja de grife, cruzando os braços enquanto o analisava de cima a baixo. Átila, mesmo vestindo trapos, mantinha a coluna ereta, o queixo erguido e aquela pose inabalável de arrogância aristocrática que parecia fundida à sua própria espinha dorsal. Era uma visão quase cômica, um príncipe banido disfarçado de operário.

Ela soltou um suspiro divertido, os olhos brilhando. Átila, percebendo que não ganharia aquela batalha contra a teimosia dela, bufou, desviando o olhar para as araras de roupas impecáveis.

— Ok, ok... — ele murmurou, rendendo-se com um aceno de mão desdenhoso. — Eu permito que você escolha algo para mim. Pode ser do seu gosto. Francamente, qualquer coisa nesta loja será infinitamente melhor do que isso aqui.

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