cap. 48
— Você finge muito mal… — ele suspirou, a voz como um raspar de seda rouca. Adon aproximou o rosto do dela, tão perto que Selene sentiu o calor irradiando dele, uma fornalha sutil que contrastava com a frescura do ar. Ela fechou os olhos, um reflexo traidor, o corpo já se inclinando em uma súplica silenciosa pelo beijo que estava por vir.
Mas o que veio não foi um beijo. Ele apenas sorriu — um sorriso lento e predatório — e sua respiração morna roçou a pele delicada do rosto dela, provocando um arrepio que desceu por sua coluna como gelo.
Em vez de beijá-la, ele tocou a base do queixo dela com a ponta do polegar. Um toque leve, mas eletrizante, que a fez prender o ar.
— Mas eu não finjo. E você deveria saber que não me interesso por beijos — disse. O toque sutil foi arrancado de uma vez, como se ele tivesse jogado um balde de água fria sobre ela.
Selene cambaleou internamente, respirando fundo, o oxigênio parecendo pesado e insuficiente. Seu coração trovejava no peito, frenético, como se temesse que Adon pudesse ouvi-lo.
As amigas tinham ido embora, e o silêncio que sobrou era espesso, carregado de expectativa.
Quando ela se virou, Adon estava de costas, examinando seu quarto. Ele observava o ambiente com uma calma gélida e perigosa, a postura de quem não apenas está um passo à frente — mas de quem já venceu o jogo. Seus olhos percorriam as prateleiras, as lembranças, as flores secas empoeiradas e a cama que, sob o olhar dele, parecia perigosamente macia.
Havia ali uma simplicidade desarmante, um espinho enfiado em sua autoconfiança — e ele detestava sentir-se desequilibrado.
— Então é aqui que você vive — comentou, a voz quase um murmúrio. — Um lugar… modesto. Mas com o cheiro de você. Tão sutil… e tão persistente.
Selene cruzou os braços sobre o peito como um escudo, tentando parecer indiferente, embora a pele formigasse sob o tecido.
— Eu tive que lavar sua camisa, mas… vou encontrar outra e você pode ir embora agora.
Adon se virou lentamente. A luz morria nos olhos dele, tornando-os duas piscinas escuras quando a encarou.
— É mesmo? E por que tanta pressa em me mandar embora? Está com medo do que eu faria se ficasse?
Ela desviou o olhar, a garganta seca.
— Porque você não devia estar aqui.
— E o que você andou dizendo sobre mim para suas amigas? — ele perguntou, dando um passo lento à frente, diminuindo perigosamente a distância entre eles. O tom era calmo. O olhar, afiado. — Estão achando que você me sustenta agora?
Selene piscou, surpresa. Depois, tentou se recompor, soltando um riso que pretendia ser desdenhoso — mas soou fino demais.
— Claro que não! Só comentei que… você é meio dependente dos seus amigos. Não consegue se virar sozinho.
— “Meio”? — ele ergueu uma sobrancelha, o olhar faiscando com um desafio perigoso. Ele avançou, aproximando-se demais. — Eu diria totalmente. Mas isso é fácil de consertar, se você quiser.
Ela franziu o cenho.
— Consertar o quê?
— De quem eu dependo. — Ele se inclinou, devagar, até o perfume dele envolvê-la. — Posso depender só de você.
Selene soltou um som de surpresa e recuou instintivamente, tropeçando no tapete. Seu corpo pedia fuga, mas o dele a seguiu com precisão predatória.
Em um instante, ela estava encurralada contra a parede. Não foi violento, mas a pressão quente do peito dele contra o dela roubou-lhe o ar e qualquer rota de escape.
— Você não devia brincar assim, senhor Adon… — murmurou, focando na curva do ombro dele para evitar seus olhos.
Ele riu — baixo, rouco e sem humor. O som vibrou na pele do pescoço dela, provocando um arrepio profundo.



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Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Quarto errado, Mafioso certo!