Cap.91
O motor do carro roncava baixo, o único som que quebrava o silêncio pesado entre nós. A mão dele envolvia a minha — firme, quente, uma âncora em meio ao turbilhão da noite. Eu sentia o cansaço dele no ar, uma tensão diferente da habitual. Não era a frieza calculista, mas o esgotamento de quem carregou um peso maior do que os ombros aguentam.
— Podemos ir para o meu apartamento? — a voz dele saiu rouca, mais um pedido do que uma ordem.
Eu só consegui acenar, o corpo ainda tremendo por dentro. “Podemos ir.”
— Quero conversar com você sobre algumas coisas que estou curioso — disse ele, e eu não consegui responder. Estava tensa o suficiente.
A viagem foi um vácuo. Meu olhar fixo na janela, mas sem ver a cidade passar. A pergunta que ele não fez, mas que eu sentia pairando no ar, queimava minha língua. Eu sabia sobre o que ele queria falar.
O que aconteceu naquela manhã com a Mima? Que briga foi aquela?
Ele finalmente quebrou o silêncio, o tom cuidadoso, quase hesitante, como eu já esperava.
— Selene. Aquela discussão com a Mima... o que foi aquilo, exatamente?
Meu estômago se contraiu. Balancei a cabeça, os olhos fixos nas minhas próprias mãos. “Não é importante.”
— Ela te acusou de algo. Do passado. E percebi que você está sendo influenciada por aquelas coisas antigas e por isso é tão submissa a ela, não é? O que te prende? — Ele insistiu, sua voz um fio de paciência. — O que aconteceu, freirinha? Fale para mim.
A memória surgiu como um mantra perverso, me atormentando: o cheiro de fumaça, o calor insuportável, os gritos. Meus dedos tremeram, buscando instintivamente um modo de respirar, como se aquele momento tentasse me sufocar enquanto eu tentava salvar as meninas… e minha melhor amiga, e falhando.
— Não quero falar sobre isso, Adon. Por favor.
Ele soltou um som baixo, uma mistura de frustração e preocupação. Seus dedos apertaram os meus, quase dolorosamente.
— Esse anel que a Guilhermina estava falando… o que ele significa? Por que ela usaria essas coisas contra você? Por que te afeta tanto? O que aconteceu de tão grave nesse passado de vocês?
Eu me encolhi no banco, tentando me fazer menor, invisível. As palavras travavam na garganta, presas em uma muralha de vergonha e dor tão antiga que parecia fazer parte dos meus ossos.
Como eu poderia explicar? Como colocar em palavras o inferno que apagou minha infância? O pior incidente que eu vivi e sobrevivi injustamente?
Não era uma ameaça. Era uma promessa. E era isso que mais me assustava.
Manhã seguinte
O cansaço ainda pesava nos meus ossos. Mal consegui dormir, mas... Adon era mesmo um homem curioso. Ele dormiu como se estivesse no lugar mais seguro do mundo, e isso me surpreende, já que naquele dia eu tive certeza de que ele realmente era alguém com dificuldades para dormir. Os armários tinham dezenas de tipos de remédio para dormir, de diversas marcas e eficácia, e parecia que nenhum servia. Penso em como a vida dele também é difícil, mesmo que ele não demonstre.
Quando o carro dele parou na frente da minha casa, mal havia colocado o pé para fora, tentando encontrar um sorriso de despedida que não existia, quando a minha porta se abriu com violência.
Mima. Como um furacão de perfume caro e ambição pura.
— Bom dia, Adon! — cantou ela, triunfante, empurrando-me para o lado com o corpo, sem qualquer cerimônia. A humilhação foi instantânea, um golpe seco no peito. Ela se sente tão confortável com Adon que simplesmente age dessa forma comigo.
Pensei que ele diria algo, mas antes que o fizesse, Mima parece já ter mais alguma...
coisa planejada.

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Os comentários dos leitores sobre o romance: Quarto errado, Mafioso certo!