LEAH HAMPTON
O centro de trauma era o inferno na Terra, e eu era o diabo regente daquele círculo específico.
As portas duplas da entrada da ambulância não paravam de abrir. Gritos de dor, ordens latidas por médicos, o bip dos monitores cardíacos, o som de roupas sendo cortadas por tesouras.
Era música para mim.
— Leito 1, homem, 30 anos, trauma torácico fechado, PA 80 por 50, taquicárdico! — O paramédico gritou, empurrando a maca para dentro. O paciente estava cinza, lutando para respirar e os olhos revirando.
Corri para o lado da maca, minhas mãos já enluvadas e o estetoscópio no pescoço.
— Transfiram no três! Um, dois, três!
Puxamos o lençol e o homem deslizou para o leito de trauma.
— Vias aéreas! — Gritei. — Alguém pegue o laringoscópio, agora! Cinthia, acesso venoso bilateral, calibre 14 ou 16, o que você conseguir primeiro. Quero Ringer Lactato correndo aberto e peçam sangue O negativo, protocolo de transfusão maciça!
Cinthia, a residente de pediatria que tinha descido correndo atrás de mim, estava pálida, mas se moveu.
Apoiei o estetoscópio no peito do homem. Esquerda: murmúrios presentes. Direita: silêncio absoluto. A traqueia dele estava desviada para a esquerda.
— Pneumotórax hipertensivo! — Diagnostiquei, minha voz cortando o barulho da sala. — Ele vai parar se não descomprimirmos agora. Bisturi!
— Dra. Hampton, a gente não devia esperar o raio-x? — Um interno perguntou, segurando a prancheta como um escudo.
— Se esperarmos o raio-x, ele morre, seu imbecil! Me dê o bisturi e um dreno de tórax número 32!
O interno me entregou o bisturi tremendo.
Limpei a área lateral do tórax com betadine num movimento rápido e fiz a incisão no quinto espaço intercostal. O sangue brotou, escuro. Inseri a pinça romba, rasgando o músculo intercostal, e ouvi o som que eu esperava: um hiss violento de ar escapando sob pressão.
O paciente inspirou profundamente, o peito expandindo. A saturação no monitor começou a subir de 75% para 88%.
— Inserindo o dreno. — Avisei, empurrando o tubo de plástico para dentro da cavidade pleural. — Conectem ao selo d'água.
O sangue começou a fluir pelo tubo, vermelho vivo, enchendo o reservatório rapidamente. Muito rápido.
— Merda. — Praguejei. — Cinthia, quanto de volume?
— Já drenou 800ml em dez segundos, Dra. Hampton!
— Ele atingiu uma artéria intercostal ou tem uma lesão pulmonar grave. — O monitor começou a apitar freneticamente. A pressão estava caindo de novo. — Ele está chocando. Cadê o sangue?
— Está chegando! — Uma enfermeira gritou, correndo com bolsas de sangue.
— Onde está o Dr. Torres? — Gritei, olhando para a porta da sala de trauma. — Eu preciso de um cirurgião titular aqui! Esse cara precisa ir para o centro cirúrgico agora, ou vamos ter que abrir ele aqui mesmo!
Ninguém respondeu.
Olhei ao redor. A confusão estava por toda parte. Outros médicos lidavam com fraturas expostas, traumatismos cranianos. Mas ninguém sênior o suficiente para autorizar ou liderar uma toracotomia de emergência estava no meu campo de visão.
— Torres! — Berrei novamente.
— Ele não atende o bipe, Doutora! — A enfermeira-chefe respondeu.
O paciente na mesa convulsionou uma vez e ficou imóvel. O monitor mudou o som. Uma linha reta.
— Parada! — Gritei. — Iniciando compressões! Cinthia, assuma a massagem!
A residente subiu num banquinho e começou a bombear o peito do homem.
— 1mg de Epinefrina! — Ordenei. — Vamos lá, não morra no meu plantão, seu filho da mãe.
Eu sabia o que precisava ser feito. Ele estava sangrando para dentro do tórax. A massagem cardíaca não ia adiantar nada se o coração estivesse vazio ou comprimido por sangue. Eu precisava abrir o peito. Uma toracotomia de reanimação.
Era um procedimento arriscado, brutal e, tecnicamente, eu precisava de um Attending presente. Eu era uma Fellow de Trauma, experiente, sim, mas as regras do hospital... Porra, dane-se as regras!
— Preparem a bandeja de toracotomia.
— Dra. Hampton... — A enfermeira hesitou. — Sem o Dr. Torres? O protocolo...
— O protocolo está morto, e esse homem também estará em um minuto se eu não clampear a aorta dele! Preparem a maldita bandeja!
Peguei o bisturi novamente, pronta para fazer uma incisão de ponta a ponta no peito do homem. O suor escorria pelas minhas costas. Meus batimentos estavam sincronizados com todo o barulho ao meu redor.
Levantei os olhos por uma fração de segundo enquanto a enfermeira rasgava o pacote estéril dos instrumentos.
Na porta da sala de trauma, estava Markus Blackwood.
Ele tinha tirado o paletó. As mangas da camisa branca estavam dobradas até os cotovelos, revelando antebraços fortes e veias saltadas. Ele estava olhando para mim. Para a minha mão segurando o bisturi sobre o peito do paciente.
Mas não parecia um administrador preocupado com processos.


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Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Querido chefe, os gêmeos não são teus!