Emily
Saio do quarto puxando minha mala de rodinhas, com o coração pesado. Por fora, meu rosto está tranquilo, mas por dentro estou despedaçada. Na sala, dou de cara com Okan, sentado em frente à lareira, um copo de uísque na mão.
— E papai? — Kayra pergunta a ele.
— Foi se deitar.
— Não é cedo para beber?
— É cedo, mas me deu vontade.
Os olhos de Okan encontram os meus. Há algo neles, uma mistura de angústia e cansaço, mas tudo que consigo sentir é minha própria raiva, ardente e sufocante. É maior que a dor, maior que a decepção. Ele me traiu de todas as formas possíveis, e eu preciso me proteger. Ergo o queixo, alimentando meu orgulho ferido.
— Bem, vou indo. — Minha voz soa firme, mas por dentro estou desesperada para ir embora, fechar esse capítulo da minha vida e nunca mais olhar para trás.
Abraço Kayra com força.
— Obrigada por tudo, pela sua amizade, sua hospitalidade.
Ela sorri levemente, sem perceber o turbilhão em mim.
— Foi um prazer tê-la conosco.
Quando nos afastamos, olho para Okan.
— Obrigada por sua hospitalidade, senhor Krishnan.
Ele me encara por um momento, em silêncio, e assente. Sem dizer mais nada, viro-me e puxo minha mala, lutando contra o nó que aperta minha garganta.
No hall, pego meu casaco, vestindo-o com movimentos bruscos. Kayra me acompanha até a varanda, onde a neve fina cobre o chão como um tapete traiçoeiro.
— Me liga quando chegar em casa, tá?
— Claro, pode deixar.
Começo a caminhar em direção ao carro, equilibrando-me na neve e carregando a mala. Quase escorrego e, em um instante de fúria, murmuro uma blasfêmia baixa contra o mundo. Contra ele.
Coloco a mala no banco traseiro com mais força do que deveria e me sento ao volante. Gemo um "vamos lá" silencioso enquanto giro a chave. Nada.
Tento de novo. E de novo. O carro está morto.
Respiro fundo, sentindo a frustração crescendo como uma maré. Olho para trás, e lá está Okan, na varanda, observando-me com os braços pousados nos ombros de Kayra. Seus olhos brilhantes mostram algo que não consigo decifrar, mas sei que não é arrependimento.
Saio do carro com raiva fervilhando em minhas veias.
Okan fala algo a Kayra e vem na minha direção com passos decididos.
— O que foi? — pergunta ele, com uma calma que me provoca ainda mais.
Seguro minha irritação, tentando não explodir.
— Giro a chave, mas o carro não pega.
— Hum. — Ele faz, como se já soubesse.
— Droga! Você conhece algum mecânico?
Ele sorri de lado, aquele sorriso que eu odeio tanto quanto amo.
— Duvido! — Digo, cruzando os braços.
Ele suspira e, para minha surpresa, solta a verdade com uma tranquilidade cruel:
— Tudo bem, vou abrir o jogo. Eu mexi no seu carro.
Fico boquiaberta, minha indignação se mistura com choque.
— Como?!
— Não quero que vá. Precisamos conversar, Emily.
Minha raiva atinge o limite, mas antes que eu consiga gritar, Kayra se aproxima rapidamente.
— O que houve? O carro não pega?
— Não! — digo, tentando soar casual, mas minha voz sai cortada pela tensão. — Vou ter que chamar um táxi.
Kayra me lança um olhar surpreso e depois me abraça.
— Allah! Nada disso. Okan vai dar uma olhada no carro para você. Ele entende de carros. E isso é mais um motivo para você ficar aqui.
Afasto-me, desesperada para manter a compostura.
Meus olhos vivos encontram os dela.
— Estou só pensativa.
— Sim, você estava tão longe. O que foi?
Queria tanto poder me abrir com Kayra. Mas sei o quanto ela é apegada aos costumes e às tradições, e a verdade a desapontaria profundamente.
— Eu estava pensando em tudo o que tenho que fazer quando chegar em casa. Como sabe, no dia quatro volto ao trabalho.
— Amanhã Okan dará uma olhada no seu carro. Quando ele era mais novo, chegou a trabalhar em uma oficina mecânica para ajudar em casa.
— Verdade? — Tento soar interessada, embora meu coração esteja pesado.
— Sim. Nem sempre fomos ricos. Eu nasci nas vacas gordas, mas Okan passou por muita luta ao lado de meu pai para manter a casa.
Assinto, absorvendo o que ela diz. Não conheço nada sobre o homem a quem me entreguei, e ainda assim sinto como se o conhecesse de alguma forma. Talvez seja o convívio aqui, com Kayra, com seu pai, e por me familiarizar com seus costumes.
O mais estranho? Nada disso me afugentou. Pelo contrário, me fez pensar que, se Okan realmente gostasse de mim, eu...
Não.
Não alimente esperanças!
Quando terminamos o jantar, caminho até meu quarto, tentando afastar esses pensamentos. Preciso escovar os dentes antes de assistir a algo com Kayra na sala, como combinamos.
No corredor, uma das portas está entreaberta. Um movimento chama minha atenção.
Okan.
Ele está lá, sem camisa, espreguiçando-se como se acabasse de acordar. Os músculos do seu corpo ondulam, e eu sinto o impacto disso. Meu corpo inteiro se arrepia, e o coração, traidor, acelera.
Giro a cabeça rapidamente, como se o gesto pudesse apagar a imagem da minha mente, e sigo firme para o quarto.
Que inferno é isso!
Meu coração pulsa de raiva e desejo, uma mistura enlouquecedora que me faz querer gritar.
Eu preciso ir embora.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Romance Proibido
Não consigo liberar para leitura, mesmo tendo saldo disponível....
Fiz a compra e não desbloqueia para ler , falta de respeito com o leitor!!!...