Olívia respirou fundo e caminhou para o closet.
Pegou um conjunto rosa — top, legging e tênis branco — e vestiu-se com calma. Prendeu o cabelo num rabo de cavalo alto, colocou um boné e parou diante do enorme espelho. Seu corpo curvilíneo refletido ali parecia diferente, não no físico, mas na postura.
Pegou o celular, tirou uma foto de frente para o espelho e abriu os status das redes sociais. Digitou a descrição inspirada em uma música.
“Porque Deus me fez assim. Dona de mim.”
Publicou. Pegou a mochila e saiu do quarto, seguindo em direção à cozinha.
Na cozinha, Vânia estava terminando de montar um sanduíche caprichado e uma taça grande de salada de frutas com iogurte e granola já estava sobre a ilha. Olhou para Olívia entrando e sorriu.
— A conversa fez efeito, hein? — disse, colocando o prato na ilha. — Seu lanche está prontinho, minha menina.
— Vânia, a sopa estava uma delícia. — Olívia sentou-se no banco e puxou a taça. — Vou malhar. Preciso cuidar de mim e do meu filho.
— É assim que eu quero te ver. — Vânia pousou a mão de leve no ombro dela. — Se alimenta direitinho. Você agora come por dois
Olívia comeu toda salada de frutas.
— Nossa, estava perfeita. — mordeu o sanduíche, mesmo sem fome. — Não estou com muita vontade, mas vou comer. Ele precisa.
— Você também. — Vânia sorriu, firme.
Enquanto comia, Olívia puxou o celular e viu que o status publicado tinha dezenas de visualizações em minutos. Algumas mensagens entrando, inclusive de gente que ela nem falava há tempos. Ela conteve o impulso de abrir. Deixaria para depois.
Terminou o sanduíche, limpou os lábios com delicadeza.
— Estava tudo ótimo, Vânia. Obrigada. Meu bebê está alimentado. Agora eu vou suar um pouco.
— Bom treino, Olívia.
Ela sorriu, pegou a bolsa e ligou para Ísis a caminho da porta.
— Já está pronta?
— Já! — respondeu Ísis, animada. — Te encontro na frente.
Ísis veio caminhando pelo jardim com uma mochila pequena e um moletom amarrado na cintura, rindo sozinha.
— A Vânia me adotou — anunciou, sorridente. — Fez um lanche pra mim, acredita? Se eu continuar assim, vou pedir pensão afetiva.
Olívia soltou uma risada leve.
— Se sua mãe for ciumenta igual a minha, é capaz de aparecer aqui só pra puxar sua orelha.
O sorriso de Ísis se suavizou, sem perder o brilho.
— Cresci em orfanato, Liv. — disse simples, sem drama. — Mãe, no meu caso, é uma ideia.
Olívia levou um segundo para processar, o rosto ficando sério.
— Me perdoa. Eu falei sem pensar.


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