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Comprei um Gigolô e ele era um Bilionário (Kayla Sango ) romance Capítulo 679

~ RENATA ~

O chão do banheiro estava frio o suficiente para me lembrar que eu era humana.

O gosto metálico na minha boca não ajudava.

Eu pisquei devagar, tentando organizar as imagens que ainda vinham em flashes — o estalo, o peso do corpo dela avançando, a fúria nos olhos da Bianca Bellucci como se ela tivesse passado a vida inteira treinando exatamente para aquele segundo.

Eu não tinha previsto isso.

Eu tinha imaginado a Bianca como eu sempre imaginei mulheres como ela: bonitas demais para suarem, educadas demais para morderem. Gente que apanha com classe e depois compra o silêncio do mundo com cheque.

Mas ela… ela tinha briga no corpo.

E pior: briga que humilha.

Não era só dor física. Era a sensação de ter sido colocada no meu lugar como se eu fosse pequena. Como se eu fosse descartável. Como se eu fosse patética.

Eu apertei os dentes.

A dor subiu pela minha têmpora, latejando, e eu respirei pelo nariz, devagar, como se respirar com calma pudesse impedir a realidade de existir.

Não.

Eu não ficava por baixo.

Eu nunca fiquei por baixo.

A diferença entre mim e as outras pessoas era simples: quando eu perdia, eu não aceitava a derrota como fim. Eu aceitava como como ajuste de rota.

E ali, deitada naquele chão, eu senti a rota se redesenhando com uma clareza quase deliciosa.

Bianca tinha cometido um erro.

Ela tinha saído do papel de perfeição.

E isso… isso era uma brecha. Uma rachadura. Um convite.

O problema era outro, e ele era irritante: uma briga “comum” não vira guerra jurídica sozinha.

Duas mulheres no banheiro? O mundo ia rir.

“Briga por homem.”

“Ciúme.”

“Escândalo.”

E eu já ouvia o tom de fofoca, o julgamento barato, o prazer coletivo de reduzir tudo a novela.

Só que eu não estava disputando um homem.

Eu estava disputando poder.

E poder não se ganha com uma história meia-boca.

Eu não precisava que o mundo risse.

Eu precisava que o mundo… se compadecesse.

Eu passei a língua pelos lábios e senti o corte arder.

A dor era real. Ótimo. A realidade sempre foi uma matéria-prima útil.

Eu apoiei as mãos no chão e me sentei com cuidado, o corpo reclamando em vários lugares ao mesmo tempo. Olhei ao redor. O banheiro era bonito, caro, impecável — até eu e ela entrarmos nele.

Eu me levantei devagar, encostei as mãos na pia e fiquei me encarando no espelho grande sobre a pia que refletia meu estado com crueldade: maquiagem borrada, olhos brilhando de raiva, um vermelho na boca que não era batom.

Patética, uma parte de mim sussurrou.

Eu ignorei.

— Isso não vai ficar assim — eu murmurei, e foi uma promessa.

Porque eu conhecia o mundo.

Eu ouvia vozes abafadas do lado de fora, o som distante de música e gente feliz. O mundo continuando como se ninguém tivesse acabado de começar uma guerra numa pia de mármore.

Então a porta abriu.

Passos.

Um suspiro alto, chocado, como se o ar tivesse sido arrancado da pessoa.

— Ah, meu Deus… — a voz de uma mulher. — Meu Deus! Senhora?!

Eu abri os olhos devagar, como se fosse difícil manter a consciência.

Ela já estava ajoelhada ao meu lado, mãos tremendo sem saber se tocava em mim, olhando ao redor como se procurasse o culpado escondido dentro do azulejo.

— O que aconteceu? — ela repetiu, desesperada. — Quem fez isso com você?

Eu deixei o olhar se perder por um segundo — teatro mínimo, porque a dor ajudava a vender — e quando foquei nela, a minha voz saiu rouca, quebrada do jeito certo.

Eu nem precisei forçar a dor através da voz.

Porque estava doendo.

— Chama… — eu sussurrei. — A polícia… por favor…

A mulher levou a mão à boca, horrorizada.

— Sim, sim... claro... eu...

Eu segurei o pulso dela com a força exata para parecer desespero.

— Eu preciso… denunciar… — eu continuei, respirando como se cada palavra custasse. — Quem… fez isso.

Eu deixei a frase morrer antes do nome.

Não por falta de ar — por método.

Bastava apontar o cenário, bastava deixar o “aqui” e o “agora” fazendo o trabalho por mim.

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