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Comprei um Gigolô e ele era um Bilionário (Kayla Sango ) romance Capítulo 680

~ BIANCA ~

O ar da rua bateu no meu rosto como um tapa frio quando eu saí do prédio do evento. Não que estivesse um dia frio, mas eu estava quente por dentro. Quente de raiva, de adrenalina, de vergonha por ter perdido o controle, de um tipo de incredulidade que fazia tudo parecer meio fora do eixo.

Eu mantive a coluna reta. Mantive o queixo alto. Mantive a expressão que eu usava em reuniões com homens que achavam que eu devia agradecer por estar sentada à mesa.

Só que, dessa vez, não era uma mesa.

Era uma viatura.

— Senhora Bellucci, por favor — o policial repetiu, num tom que não era grosseria, mas também não era escolha.

Eu olhei em volta, procurando alguma lógica que não fosse a óbvia. O estacionamento.

— Isso é… sério? — eu perguntei, e a minha voz saiu mais calma do que eu me sentia.

— Houve uma denúncia de agressão — ele respondeu, profissional. — E a pessoa que registrou a denúncia está com lesões compatíveis. Precisamos conduzir a senhora para prestar esclarecimentos.

Lesões compatíveis.

Eu senti uma onda de nojo subir pela garganta. Compatíveis com o quê?

— Foi uma briga — eu disse, e só de falar “briga” eu já odiava a palavra. — Uma discussão que passou do limite. Eu também estou machucada.

O policial olhou para a minha boca. Para os arranhões no meu antebraço, finos, ardendo agora que a adrenalina estava baixando.

Ele não pareceu comovido. Pareceu… registrando.

— A senhora pode explicar isso na delegacia, senhora Bellucci.

Dentro do carro, eu fechei os olhos por um segundo. Pensei no Nico. Pensei na Bella. Pensei no timing perfeito de tudo sempre desabar junto — como se a vida tivesse uma lista e estivesse riscando itens com prazer.

Não chora. Não agora.

Chegamos rápido demais.

Delegacia não tem glamour em nenhum país. Tem o mesmo cheiro de papel velho, metal, suor contido. Tem o mesmo som de gente falando baixo, de teclado batendo, de porta abrindo e fechando.

Eu entreguei meus documentos. Assinei um formulário. Respondi nome completo, data de nascimento, endereço. A cada pergunta, eu sentia uma parte da minha identidade sendo reduzida a uma linha.

— A senhora tem algum advogado? — perguntaram.

Eu tive vontade de rir. A ironia era quase bonita: eu tinha uma equipe inteira de advogados, e nenhum deles estava ali naquele segundo.

— Tenho — eu respondi. — Mas isso não é necessário. Foi… foi uma briga normal. Eu só quero ir pra casa.

O homem atrás do balcão nem ergueu os olhos. Só fez um gesto curto com a caneta.

— Sente ali. Já vão chamar a senhora.

Eu me sentei numa cadeira dura, embaixo de uma luz branca que deixava tudo com cara de cansaço. O tempo passou em blocos. Dez minutos. Quinze. Mais quinze. Eu não usava um relógio, mas eu tinha aquela sensação física de relógio: a ansiedade que cresce e começa a roer.

Quando chamaram meu nome, eu me levantei rápido. Me levaram para uma sala pequena, com uma mesa, duas cadeiras e um gravador. Eu pensei, sem querer, naquelas cenas ridículas de filme em que o inocente diz “eu quero um advogado” e todo mundo treme.

Eu não era inocente. Eu tinha batido.

Mas eu também não era o monstro que ela ia tentar pintar.

— Conte o que aconteceu — o escrivão pediu, e a voz dele era neutra demais para a minha realidade.

Eu respirei.

— Eu fui ao banheiro do evento — eu comecei, devagar. — Eu encontrei a Renata lá. Tivemos uma discussão. Ela me provocou. Ela me ofendeu. Ela… insinuou coisas sobre a minha vida, a minha gravidez, a minha relação com o meu marido e com a filha dele.

Eu vi a caneta dele se mover, registrando.

— Houve agressão física?

Eu sustentei o olhar.

— É procedimento. Para documentar lesões. Inclusive as suas.

Eu fui.

O corredor do instituto tinha um silêncio diferente. Mais clínico. Mais gelado. A médica olhou meus arranhões, fotografou, anotou. Limpou o canto da minha boca com algodão, e o toque leve doeu de um jeito que me fez fechar os olhos.

— Isso aconteceu hoje? — ela perguntou.

— Sim.

— Está grávida? — ela perguntou depois, e o tom dela mudou sutilmente.

Eu travei por um segundo. Porque até ali eu tinha conseguido manter o bebê como uma bolha privada dentro do caos.

— Sim — eu respondi, baixo.

Ela fez uma anotação extra. Falou sobre cuidado. Sobre estresse. Sobre “evitar traumas”. Como se eu tivesse controle sobre qualquer coisa.

Quando me devolveram para a delegacia, eu já estava exausta de um jeito que não era físico. Era mental. Era a sensação de estar sendo puxada por fios em todas as direções e ainda assim ter que parecer inteira.

Eu me sentei de novo.

Esperei de novo.

E, quando finalmente me chamaram, eu já fui com a frase pronta na boca, na tentativa desesperada de retomar qualquer autoridade sobre a minha própria vida.

— Já terminou? — eu perguntei. — Eu posso ir pra casa agora?

O policial à minha frente não respondeu com crueldade. Ele respondeu com rotina. E talvez fosse isso que mais me apavorava: eu era só mais um caso.

Ele ajeitou um papel na prancheta, conferiu meus dados como se confirmasse um número, e então disse, com a mesma calma firme de antes:

— Senhora Bellucci, por enquanto a senhora fica aqui. Se desejar, pode indicar um familiar para ser avisado. Ou o seu advogado.

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