~ NICO ~
Eu tinha prometido.
Não com palavras bonitas, nem com aquelas promessas que adultos fazem para se sentirem melhores — eu tinha prometido com presença. Com tempo. Com a coisa mais rara que eu tinha aprendido a dar depois que virei pai: ficar.
Bella estava espalhada no tapete da sala com uma manta por cima da cabeça, transformando o próprio corpo num “fantasma” dramático que andava devagar e trombava de propósito nas coisas.
— Uuuuh… — ela fez, batendo de leve no sofá. — Sou o fantasma que assombra pais que fazem bebês.
Eu ri sem querer, mesmo com o peito ainda apertado de tudo que tinha acontecido.
— Nossa. Que específico.
— Fantasma sabe de tudo — ela respondeu, saindo debaixo da manta com o cabelo todo bagunçado e o nariz vermelho do choro mais cedo.
Eu me agachei na frente dela.
— Tá. Então vem cá. Fantasma sabichão… você quer conversar comigo sem manta?
Ela hesitou, os olhos indo para o lado como se conversar fosse uma armadilha. Mas a mão dela veio procurar a minha. Pequena. Quente. E aquele gesto me acertou mais do que qualquer frase.
— Eu não quero perder você — ela disse de uma vez, sem rodeio, como criança que não tem vocabulário para contornar medo.
Eu senti a garganta fechar.
— Você não vai me perder.
— Vai sim — ela insistiu, e a voz saiu mais alta do que ela queria. — Porque bebê é pequenininho e você vai pegar no colo e… e… e eu vou ficar...
— Olha pra mim — eu pedi, firme, mas suave.
Ela olhou. E eu vi, bem ali, o estrago de alguém ter colocado palavras adultas demais dentro de um coração pequeno demais.
— Tem espaço pra você e tem espaço pra um bebê — eu disse. — E tem espaço pra todos os dias que ainda vão existir. Não é um pedaço de bolo que acaba quando alguém pega a última fatia, Bella.
Ela mordeu o lábio.
— Mas a tia Bia vai ter um bebê só dela.
— E daí?
— E daí que… — ela fez um gesto com as mãos, frustrada porque não conseguia explicar o que sentia. — O bebê é dela. Eu não sou dela.
Eu respirei fundo e tentei escolher um caminho que não fosse “desmentir”. Eu não queria apagar o medo dela. Eu queria atravessar com ela.
— Você lembra da primeira vez que a Bianca te fez rir na Tenuta? — eu perguntei.
Bella franziu a testa, como se estivesse procurando o arquivo certo na cabeça.
— Foi quando ela confundiu o nome do seu trator — ela disse, de repente, e fez uma careta. — Ela falou “escavadeira” e você ficou com aquela cara de velho chato.
— Eu não fiquei com cara de velho chato.
— Ficou sim — ela disse, com convicção absoluta. — Você falou: “Não é escavadeira.” Aí ela falou: “Tá bom, chato da construção.”
Eu soltei uma risada de verdade, porque era impossível não ver a cena inteira como se estivesse acontecendo agora.
— E você riu — eu lembrei.
— Eu ri porque você ficou vermelho — ela confessou, e por um segundo o rosto dela ficou mais leve. Depois escureceu de novo. — Mas… era antes.
— Antes de quê?
— Antes de bebê.
Eu puxei ela devagar pro meu lado e sentei no sofá com ela encostada em mim.
— A Bianca nunca tentou me afastar de você — eu disse. — Nunca. Pelo contrário. Ela sempre puxou você pra perto.
Bella ficou quieta.
— Lembra de nós três vendo desenho juntos? — eu insisti. — Você no meio, fazendo comentário de tudo, como se fosse crítica de cinema. E a Bianca rindo, e eu fingindo que tava bravo, mas… tava feliz.
Bella soltou um risinho pequeno, quase escondido. E eu me agarrei nele como quem segura uma ponta de corda.
— Mas e se vocês gostarem mais dele?
Eu encostei a testa na dela, do jeito que eu fazia quando ela era bebê e chorava por coisa que eu não conseguia consertar.
— A gente não gosta “mais”. A gente gosta diferente. Amor de pai não tem ranking, Bella. Não tem primeiro lugar.
— Tem sim — ela murmurou, teimosa.
— Tá. Então vamos fazer um teste científico — eu disse, e levantei. — O laboratório de hoje: açúcar e filme.
Ela ergueu as sobrancelhas.
— Isso é ciência?
— Ciência italiana — eu declarei. — A mais respeitada do mundo.
Ela riu, e o riso dela me deu um alívio físico. Como se eu tivesse respirado depois de ficar preso muito tempo debaixo d’água.
Eu coloquei um filme que ela escolheu — um desses com bichos falando e moral no final. Fiz chocolate quente, e Bella supervisionou cada detalhe como a avó havia lhe ensinado.
No meio do filme, ela encostou no meu ombro sem perceber. E eu fiquei imóvel, com medo de mexer e ela desistir. Deixei a mão descansar no cabelo dela, leve.
— Calma — Bianca disse, e eu vi que ela estava tentando ser Bianca, tentando ser controle, mas havia um fio quebrado por baixo. — Eu preciso que você venha. Agora.
Meu estômago despencou.
— Eu tô indo — eu disse imediatamente, já pegando as chaves.
— Papai? — Bella chamou, e a voz dela… a voz dela veio pequena demais.
Eu virei.
Ela estava sentada no sofá com a manta no colo, como se, de repente, tudo tivesse voltado a ser instável.
— Mas você prometeu — ela disse, apontando para o controle do videogame, tentando segurar o combinado como se segurasse o mundo.
Meu coração se partiu no meio.
Eu fui até ela e me agachei, segurando o rosto dela com cuidado.
— Eu prometi — eu disse. — E eu não tô quebrando. É uma emergência, tá? Eu vou resolver e eu volto.
Os olhos dela encheram. Não caíram lágrimas ainda. Era pior: era a ameaça delas.
— Você vai voltar mesmo?
— Vou.
A porta da cozinha abriu e Martina apareceu, já alerta só pelo meu tom.
Eu olhei para ela e não precisei explicar muito.
— Mãe… eu preciso sair agora. Você fica com a Bella?
— Vai — ela disse. — Eu fico.
Bella me encarou, segurando o choro como se fosse uma coisa que ela tinha que vencer sozinha. E aquilo me matou.
— Eu não vou demorar — eu repeti, tentando fazer a frase virar verdade pela força.
Ela assentiu, mas os olhos dela ficaram molhados.
Eu beijei a testa dela.
— Eu volto, princesa.
E quando eu saí pela porta, o som da voz de Bella, pequena e quebrando atrás de mim, foi a coisa que eu mais temi ouvir na vida:
— Tá… mas não esquece, tá? Não esquece de mim.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Comprei um Gigolô e ele era um Bilionário (Kayla Sango )
Poxa autora, é interessante a gente disponibilizar os capítulos gratuitos mesmo já tendo acabado de postar a história... Não dá pra toda hora ficar comprando moedas pra ler....
Boa noite... Desde 6f que não liberam os capítulos... já está ficando cansativo.... affff...
Oi autoura Kayla Sango, sei que se despeciu e finalizou esses livros, mas quando sentir que deve, conte a história de Matheus e Mia e também Dante e Paloma, acho que nós como espectadores ficariamos muito gratos, principalmente quem acompanhou todos os livros até aqui. Estou com um gostinho de saudade já. Obrigada!...
Quem é Paloma, gente? Era pra ser a Paola, no caso?...
Pois é Simone Honorato, eu tbm fiquei super animada achando que leria 20 capítulos.Frustante mesmo...
Boa tarde, reparei que do capitulo 731 pulou para o capitulo 751 !!!! Me parece o FINAL !!!! É ISSO MESMO ? FRUSTANTE, PENSEI QUE LERIA 20 CA´PITULOS, E NADA, SOMENTE 01.!!...
Pelo amorrrrrrr desbloqueia esses capitulos!!!!!...
Paguei pelas moedas, e não foi desbloqueado! Afff...
O que houve porque parou de carregar capítulos?...
Gostaria de manifestar uma profunda insatisfação com vc autora, pois vc parou a história no capítulo 731 e nada de falar se foi o fim do livro ou se vai ter continuação Acho um desrespeito com os leitores q espera todo dia por um novo capítulo. Acho que seria o.minimo de respeito avisar q acabou....