~ BIANCA ~
A casa estava limpa demais.
Não “limpa” no sentido de organizada — a casa sempre era organizada, porque eu não suportava a ideia de viver no improviso — mas limpa demais no sentido de… preparada. Encenada. Como se eu tivesse tentado varrer também aquilo que não varre: os problemas, a delegacia, a humilhação de ter meu nome dito por um policial como se eu fosse um problema público.
Eu tinha escolhido uma camisa discreta, cabelo preso, maquiagem leve o suficiente para não parecer que eu estava tentando esconder nada — e, ao mesmo tempo, competente o suficiente para esconder o que dava para esconder.
Nico fingia uma calma que não tinha.
Bella, por outro lado, parecia… normal. Normal demais.
— Vai dar certo — Nico disse baixo, encostando a mão na minha cintura de um jeito protetor demais para não ser também ansioso.
Eu assenti. Sorri. Eu era ótima em parecer que estava tudo sob controle.
Só que meu estômago não acreditava em mim.
A campainha tocou com pontualidade italiana, o que me irritou por motivos irracionais. Eu queria atrasos. Queria falhas humanas. Queria qualquer coisa que lembrasse que aquilo não era um julgamento.
Nico foi abrir, mas eu já estava um passo à frente — o gesto automático de quem sempre foi a anfitriã de tudo, inclusive das próprias tragédias.
O homem na porta parecia ter saído de um manual: terno escuro, pasta fina, expressão neutra treinada para não entregar opinião antes da hora.
— Bianca Bellucci? — ele perguntou.
— Sim — respondi, e a minha voz saiu firme. A voz que eu usava em reuniões que valiam milhões. — Pode entrar.
Ele se apresentou com educação formal — nome, função, menção ao procedimento. Não disse “entrevista”. Não disse “investigação”. Disse “avaliação inicial” com aquele cuidado de quem escolhe palavras como quem pisa em gelo.
Nico apareceu ao meu lado, braço passando de leve pelas costas de Bella quando a menina se aproximou para espiar.
— Eu sou o Nicolò — ele disse. — Pai da Isabella.
O homem cumprimentou Bella também, sem infantilizar, mas com gentileza.
— Oi, Bella. Você tá bem?
Bella deu um sorriso pequeno, educado demais para uma criança. Aquele sorriso que ela usava quando sentia que tinha que “se comportar”.
— Tô.
Eu fiz sinal para entrarmos na cozinha. Eu tinha escolhido aquele ambiente de propósito: luz, conforto, cheiro de casa. Havia um bolo simples em cima da bancada — comprado, obviamente, mas parecia caseiro o suficiente para mentir bem.
O homem abriu a pasta.
— Eu vou fazer algumas perguntas gerais. Depois, se for possível, eu gostaria de conversar com a Bella por alguns minutos. Só com ela.
Meu corpo inteiro ficou alerta.
Nico também.
Eu podia sentir, no ar, o impulso dos dois: “não”. Não por controle. Por medo. Por proteção. Por pânico puro do que uma criança de oito anos poderia dizer sem entender que cada palavra virava arma na mão de adultos.
— Claro — eu disse antes que Nico dissesse qualquer coisa. E, quando ele me olhou, eu completei com um sorriso rápido, quase um pedido silencioso: confia em mim.
O homem fez perguntas que pareciam inocentes e eram cirúrgicas: rotina, horários, escola, rede de apoio. Eu respondi como eu respondia em entrevistas de cargo — objetiva, clara, sem drama. Nico respondeu com mais emoção do que queria, mas com honestidade.
Bella ficou na mesa, mexendo no cereal sem comer de verdade, ouvindo tudo com um ouvido só.
Em algum momento, o homem olhou para mim de um jeito mais atento.
— A senhora está grávida?
— Sim — respondi. — Poucas semanas.
Ele anotou. Só isso. Anotar parecia fácil demais. Como se uma vida nova coubesse em uma linha.
Então ele fechou a pasta com leveza e olhou para Bella.
— Tudo bem conversarmos um pouquinho só nós dois? Você me ajuda a entender como é sua rotina? Prometo que é rápido.
Bella assentiu, olhando para Nico primeiro — o reflexo automático de pedir permissão com os olhos.
Ele engoliu seco e assentiu para a filha com um sorriso que doeu de tão esforçado.
— Claro, princesa.
O homem puxou uma cadeira e se sentou diante de Bella. Não colocou a pasta sobre a mesa como ameaça. Não tirou gravador. Só um bloco pequeno e uma caneta.
Eu levantei primeiro, para dar o tom, como quem só vai “pegar água. Nico me seguiu com o olhar, perdido, preso entre obedecer e desobedecer.
Foi quando eu fiz um sinal pequeno com a mão, quase imperceptível.
“Vem.”
Nico hesitou um segundo — o segundo exato em que o pai dentro dele quis dizer “não” — mas eu vi o adulto lembrar onde a gente estava. Ele levantou, silencioso, porque ficar teria virado desafio.
Nico entendeu quando eu conduzi a gente para a adega anexa — aquela que, por algum motivo arquitetônico, tinha um vão alto de ventilação voltado para a cozinha. Era discreto, bonito, “para o ar circular”… e, naquela manhã, para as palavras circularem também.
Nós viramos dois fantasmas adultos, escondidos atrás de garrafas e madeira, tentando controlar o que não se controla.
Do outro lado, o homem começou com perguntas simples.
— Bella, me conta… como é morar aqui?
— É… legal — ela respondeu.
— O que você gosta de fazer com seu pai?
Silêncio curto. Depois:
— A gente… vê filme. Às vezes j**a.
Nico ao meu lado soltou um ar pequeno, quase alívio. Era a Bella dele. Era a rotina deles. Era o que importava.
Porque eu precisava.
O homem fez mais algumas perguntas, e Bella respondeu entre frases curtas e silêncios compridos.
Até que ele disse:
— Eu ouvi falar que vocês vão ter um bebê.
Eu quase senti o Nico cair de joelhos, de tão tenso.
Bella ficou quieta um tempo que pareceu longo demais para ser só reflexão.
— Eu não sei — ela disse por fim.
— O que você sente quando pensa nisso?
Bella engoliu.
— Confuso.
— Confuso como?
A voz dela veio menor ainda:
Meu sangue gelou e ferveu ao mesmo tempo.
— E isso significa o quê pra você? — o homem insistiu, com calma.
Bella demorou. Como se estivesse procurando uma palavra que não existia.
— Que eu… posso ficar de lado.
Nico soltou um som baixo, quase um soluço engolido. Eu vi o pai nele se quebrando sem barulho.
— Você se sente deixada de lado agora?
— Não… — Bella respondeu rápido demais. E depois, como se a própria resposta tivesse sido grande demais: — Quer dizer… às vezes.
— E o que você tem medo que aconteça?
— Que eu não seja mais especial.
Eu segurei a respiração. Nico também.
O homem ficou em silêncio por um instante. Um silêncio respeitoso. Um silêncio que parecia preparar o golpe final.
E então ele perguntou, com a mesma voz calma, quase gentil, como se fosse uma brincadeira inocente.
— Se você tivesse que escolher… você gosta mais de ficar na casa do papai ou da mamãe?

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Comprei um Gigolô e ele era um Bilionário (Kayla Sango )
Poxa autora, é interessante a gente disponibilizar os capítulos gratuitos mesmo já tendo acabado de postar a história... Não dá pra toda hora ficar comprando moedas pra ler....
Boa noite... Desde 6f que não liberam os capítulos... já está ficando cansativo.... affff...
Oi autoura Kayla Sango, sei que se despeciu e finalizou esses livros, mas quando sentir que deve, conte a história de Matheus e Mia e também Dante e Paloma, acho que nós como espectadores ficariamos muito gratos, principalmente quem acompanhou todos os livros até aqui. Estou com um gostinho de saudade já. Obrigada!...
Quem é Paloma, gente? Era pra ser a Paola, no caso?...
Pois é Simone Honorato, eu tbm fiquei super animada achando que leria 20 capítulos.Frustante mesmo...
Boa tarde, reparei que do capitulo 731 pulou para o capitulo 751 !!!! Me parece o FINAL !!!! É ISSO MESMO ? FRUSTANTE, PENSEI QUE LERIA 20 CA´PITULOS, E NADA, SOMENTE 01.!!...
Pelo amorrrrrrr desbloqueia esses capitulos!!!!!...
Paguei pelas moedas, e não foi desbloqueado! Afff...
O que houve porque parou de carregar capítulos?...
Gostaria de manifestar uma profunda insatisfação com vc autora, pois vc parou a história no capítulo 731 e nada de falar se foi o fim do livro ou se vai ter continuação Acho um desrespeito com os leitores q espera todo dia por um novo capítulo. Acho que seria o.minimo de respeito avisar q acabou....