Não. Não, não, não.
Não sou obrigada a sair. Já fiz minha boa ação do dia. Salvei o velho. Cumpri minha cota de heroísmo gratuito por pelo menos uma semana.
Mais um tiro.
Qual é, Deus? Sério? Eu? De novo?
Mas e se ele morresse. Ia ter sangue nas minhas mãos. Tecnicamente. Havia um argumento filosófico inteiro sobre omissão de socorro que eu não queria enfrentar agora. E o senhor Augusto ia ficar destruído. O homem já tinha perdido o suficiente.
Foda-se. Não vou colocar minha vida em risco por um homem que me deixou com uma conta de quase dois mil reais e foi embora como se eu fosse o café da manhã.
Mas ele me salvou no jardim.
Mas transou com você e saiu sem deixar nem bilhete. Ainda te tratou pior que a uma prostituta. Prostitutas recebem. Você pagou! Quem faz isso?
Mas você se importa com ele.
Essa última voz eu ignorei com toda a força disponível no meu corpo.
É pelo meio milhão. Só pelo meio milhão. Mais nenhum motivo.
Me levantei.
Abri a porta.
— Arthur! Ah, porra, cadê você?
— Aqui.
A voz veio do beco logo à esquerda, perto o suficiente para eu localizar sem precisar me aventurar muito. Ele estava encostado na parede, a perna esticada à frente, a mão pressionada na coxa. A mancha escura na calça me disse tudo antes de eu chegar perto.
— Ah, que merda — murmurei.
Joguei o braço dele sobre o meu ombro sem perguntar e puxei. Ele pesava o que eu esperava que um homem daquele tamanho pesasse, o que era muito, e eu sou pequena, o que tornava a equação ingrata. Mas já estava no movimento e não havia opção de recuar com dignidade. Voltamos pelo beco com ele mancando e eu aguentando o que conseguia, nenhum dos dois com energia sobrando pra conversa.
Entramos e tranquei a porta.
— Banheiro — falei.
— Por quê?
— Duas paredes externas. É o mais seguro que eu tenho.
Ele não discutiu, o que me disse que a dor estava falando mais alto que o ego por enquanto. Tomei isso como vitória pequena.
O banheiro era do tamanho que banheiros em casas como a minha são. Quando entramos os dois, o espaço que sobrou era exatamente o suficiente para deixar claro que não havia como fingir que a distância entre nós era confortável. Ele se apoiou na parede ao lado da pia. Eu fechei a porta e fiquei do lado oposto, o que não era lá muita coisa.


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