O olhar do doutor Marcelo e o meu se cruzaram por uma fração de segundo — tempo suficiente para eu balançar a cabeça negativamente, apenas uma fração para cada lado, tão sutil que Arthur não poderia ter notado nada mesmo se estivesse olhando na minha direção.
— O doutor sabe que não posso fazer isso — o médico respondeu, com aquela calma profissional de quem não pretende se desculpar por isso.
Arthur não perdeu tempo.
— Sou o marido da paciente.
— Então deveria conversar diretamente com a sua esposa.
Precisei morder a parte interna da bochecha para não rir. Porque nunca, em nenhum momento desde que eu conhecia Arthur Sartori, eu tinha imaginado vê-lo sendo desafiado dentro do próprio hospital. Era o lugar onde ele tinha mais autoridade do que em qualquer outro. Era onde o sobrenome na entrada era o sobrenome dele. E mesmo assim, ali estava ele, sendo gentilmente barrado por um médico que estava apenas cumprindo o que a lei mandava.
Fazia sentido, claro. Arthur podia mandar em tudo ali dentro, mas não podia mandar nas leis. Sigilo médico era sigilo médico. E Arthur podia ficar o quão furioso quisesse — e estava claramente ficando, pela forma como a mandíbula travou por um segundo — mas sabia que o doutor Marcelo estava com a razão.
— Mas, como eu disse, Zara está muito bem e está apenas sendo monitorada. — O médico fez uma pausa com o timing perfeito. — Vou permitir que o doutor fique de acompanhante.
Dessa vez não consegui segurar.
A risada saiu antes que eu pudesse fazer qualquer coisa a respeito.
Ele ia permitir. Ele ia permitir alguma coisa a Arthur Sartori. Aquele homem, naquele hospital, precisando de permissão de alguém. Era de longe a coisa mais engraçada que eu tinha ouvido em semanas — e considerando as últimas semanas, a barra não estava alta, mas ainda assim.
O médico saiu com a mesma compostura com que tinha entrado.
— Você acha isso engraçado, é? — Arthur disse.
— Acho muito — confirmei, sem nenhum remorso.
Ele voltou a se sentar na beira da cama e segurou minha mão, e havia naquele gesto uma simplicidade que me desarmou mais do que qualquer coisa elaborada teria conseguido.
— É bom te ver rindo de novo.
Senti o peito apertar de um jeito que não tinha nada de ruim.
— A culpa é toda sua — disse, com uma leveza que eu não precisei fingir. — Mas para de tentar controlar tudo. Não aconteceu nada demais. Estou no melhor hospital onde poderia estar, fiz os exames necessários e estou bem. É tudo o que você precisa saber. Pode voltar ao seu plantão agora.
— Estão me cobrindo. — Ele se ajeitou na cama, e antes que eu entendesse o que estava acontecendo, tinha se deitado ao meu lado e me puxado contra o peito com aquela naturalidade de quem não está pedindo permissão, mas também não está forçando nada. Só existindo perto de mim como se aquele fosse o lugar mais óbvio para estar. — Como estava sendo o seu dia antes disso?
— Arthur, isso ainda é análise clínica? Você está tentando descobrir alguma coisa através de...
— É só interesse genuíno — ele cortou.

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