Quando enfiaram uma sopa fria pela porta, fez muito mais sentido Alícia ter insistido para que eu comesse a dela dessa vez.
Ela queria proteger aquela criança no meu ventre porque não tinha conseguido proteger a dela. Eu entendi isso sem precisar que ela dissesse — havia algo no gesto, na forma como ela estendeu o prato sem fazer cerimônia e sem querer reconhecimento, que era mais honesto do que qualquer coisa que ela poderia ter dito em voz alta. Mesmo assim não comi, e insisti para que ela se alimentasse e se mantivesse forte caso precisássemos escapar em uma fuga. Era o único tipo de argumento que eu sabia que funcionava com ela: lógica prática sem enfeite.
— Não estou sendo legal, sabe — ela tentou explicar, apontando para o prato de sopa. — É só que isso é horrível mesmo.
— Acho que eles não devem ter nenhum cozinheiro digno de estrela Michelin disponível para as sequestradas.
Ela me encarou por alguns segundos com aquela expressão meio desconfiada, meio divertida contra a própria vontade, antes de dizer:
— Me admira você saber o que é estrela Michelin.
Olhei pra ela de volta.
— É, me admira também. Céus, estou virando uma patricinha.
As duas rimos ao mesmo tempo, e havia naquele riso uma leveza que nenhuma das duas tinha pedido mas que chegou sem aviso prévio, como a maioria das coisas que a gente realmente precisa.
Depois de terminar a sopa, fiquei um tempo sentada no chão com as costas na parede, olhando pro teto enquanto Alícia parecia muito entretida em arrumar as tiras da sua sandália. A noite foi avançando silenciosamente — sem janela para ver, a gente sentia mais do que via, o frio aumentando devagar, a luz da lâmpada ficando mais fraca.
— É melhor você vir dormir também — falei, quando o frio no chão ficou insuportável e fui para a cama.
— Não consigo — Alícia admitiu, sem levantar os olhos da sandália. — Podem ser minhas últimas horas viva.
— Não vão ser.
E eu realmente acreditava nisso.
Tinha passado um bom tempo ali, enquanto Alícia remexia na sandália e o silêncio do quarto pesava, refletindo sobre as possibilidades. Se fossem inimigos do meu pai querendo vingança, já estaríamos sendo torturadas nesse momento. Tempo demais tinha passado para essa hipótese fazer sentido. Restavam duas: meu pai queria algo de mim especificamente, ou alguém tinha sequestrado duas riquinhas por acidente e estava negociando um resgate.
Eu preferia acreditar na segunda.
"Mas não te deixariam ver o rosto deles, se fosse um resgate simples" — a voz irritante na minha própria cabeça disse, com aquela objetividade que eu não tinha pedido.
— Cala a boca! — falei em voz alta.
— Eu tô quieta — retrucou Alícia, olhando pra mim com uma sobrancelha erguida.
— Tô falando comigo mesma.
— Ah, sim. Faz total sentido. Você sempre foi uma doida.
— Eu não sou doida. Eu só... — Parei, pensando em como dizer aquilo. — Tentava responder à sua altura. Você pega pesado com as palavras. Sabe onde atacar.


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