~ ARTHUR ~
Fábio não quis conversar ali — um olhar rápido para os lados, um gesto discreto com a cabeça que dizia que aquele não era o lugar nem o momento — e eu não insisti. Esperei até a hora do almoço dele sentado num banco do lado de fora do hospital escola com o celular na mão fingindo verificar mensagens, observando a movimentação do lugar com aquela atenção dispersa de quem tem muita coisa na cabeça e nenhuma delas pode ser resolvida naquele instante.
Quando ele saiu, encontrei-o na calçada.
Fomos a um restaurante por quilo que ficava a dois quarteirões dali, daqueles lugares sem pretensão onde ninguém presta atenção em ninguém porque todo mundo está com pressa, olhando para o próprio prato e já pensando em voltar para o trabalho. Um bom lugar para conversar sobre coisas que não deveriam ser ouvidas.
— Então — falei, depois que nos sentamos. — Você disse que Leonora fez uma proposta.
— Leonora? — Ele pensou por um segundo. — Sim, acho que esse era o nome dela. Você a conhece?
— Melhor do que gostaria.
— Ela queria que eu apagasse os registros do teste de parentesco que a Zara fez há alguns meses. Algo sobre um avô desaparecido. Disse que o resultado tinha criado uma confusão familiar e que o mais correto seria que aquele registro simplesmente não existisse mais.
— E o que você respondeu?
— Que não podia fazer isso, é claro. — Ele disse aquilo com aquela simplicidade de quem não entende por que a pergunta precisou ser feita. — Sabe, doutor, eu não faço ideia do que estava por trás do pedido dela, mas uma coisa que aprendi cedo é que a corda sempre arrebenta pro lado mais fraco. Não me meto com nada errado, porque sei que vai sobrar pra mim.
— Bom. — Deixei aquilo assentar por um segundo. — Muito bom. Fábio, preciso que você se lembre com atenção sobre aquele exame. Foi um positivo, certo? Confirmação de parentesco entre a Zara e o avô dela.
— Ah, sim. — Ele confirmou sem hesitar. — Com uma margem muito boa, inclusive. Daquelas que não deixam dúvida.
— Não há a menor chance de esse exame ter sido adulterado? Na época?
Ele me olhou com uma expressão que dizia que a pergunta era quase ofensiva.
— Eu mesmo fui o responsável pelo exame.
Aquilo era suficiente como resposta. E só confirmava o que, a essa altura, eu já acreditava com todas as minhas forças: a Zara nunca tinha mentido. Por mais que eu mesmo tivesse pedido um segundo exame — em outro laboratório, em um lugar onde eu achava que podia confiar mais nos controles —, por mais que a dúvida tivesse entrado sem ser convidada naqueles meses todos, a verdade estava ali, clara e documentada por um residente que não tinha motivo nenhum para mentir.
A Zara não era golpista. Nunca foi. Mas havia pessoas importantes conspirando para fazer com que ela soasse como uma, e essas pessoas tinham recursos, paciência e acesso suficientes para tornar aquela mentira convincente.
— Doutor. — A voz de Fábio me trouxe de volta. — Tem algo mais que você deveria saber.
Levantei os olhos do prato.
— Eu não sou o único que trabalha naquele laboratório.
— O que quer dizer com isso?

VERIFYCAPTCHA_LABEL
Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: INVENTEI UM NAMORADO E ELE ERA MEU NOIVO BILIONÁRIO