~ ALÍCIA ~
— Me solta! — Puxei o braço, tentando soar mais firme do que me sentia. — Não tô rodeando nada. Quero falar com a Marília.
— E por que não entra pela porta da frente, como uma cliente normal?
— Porque não sou uma cliente. — O olhei de frente, tentando manter a expressão desafiadora tempo suficiente para ele acreditar.
Até me dar conta de onde estava.
Não estava num lugar seguro. Não sabia quem era aquele homem, não sabia com quem ele trabalhava, não sabia se ele era aliado do Marreta, ou se era simplesmente um funcionário que jogava lixo fora e tinha a infelicidade de encontrar comigo num beco escuro. Sair de uma morte certa num cativeiro para uma morte possível em um beco de favela certamente não era algo que eu poderia considerar um upgrade.
Tudo bem. Eu precisava agir. Precisava ser uma garota durona, do tipo que se impõe, que não demonstra medo mesmo quando está petrificada — por mais que eu estivesse me cagando.
Precisava ser a Zara.
Mas o que a Zara faria nessa situação específica?
A Zara teria um plano. A Zara sempre tinha um plano, ou pelo menos a aparência de um plano que convencia as pessoas ao redor enquanto ela inventava o próximo passo. Eu não tinha plano nenhum.
Tirei a arma do bolso e apontei para o homem diante de mim.
— Ow, ow, vamos com calma... — Ele disse, as mãos indo para cima num gesto automático. — A gente aqui não se mete em confusão não. Abaixa isso.
O barulho do choro que eu estava engolindo ecoava dentro da minha própria cabeça enquanto as mãos — decoradas com as unhas de gel perfeitamente lapidadas que agora estavam tragicamente lascadas do lado direito — tremiam de forma que eu achava que qualquer um conseguiria ver mesmo no escuro daquele beco. Segurava aquele pedaço de metal frio com as duas mãos, apontando na direção dele com determinação, mesmo que eu não tivesse ideia do que estava fazendo.
— Fica longe! Eu juro que uso isso! — Minha voz saiu aguda, um fio de desespero que parecia mais uma reclamação com o gerente de um shopping do que uma ameaça real, e eu sabia disso mesmo enquanto falava, mas não havia forma de recalibrar o tom no meio da frase.
O cheiro de lixo podre ainda pairava no ar, misturado agora com o meu próprio pânico, que também tinha cheiro: quente, metálico, idiota. Eu queria parecer imponente, como as mulheres dos filmes de ação que cruzam becos escuros com armas apontadas e expressão de quem fez isso toda a vida. Mas certamente eu só estava parecendo muito, muito boba.
O homem deu um passo curto à frente, com uma expressão que misturava preocupação genuína com uma vontade de rir que ele estava claramente esforçado para conter. Ele tinha percebido o tremor nos meus braços. Tinha percebido que eu segurava aquilo como se fosse um rato morto.

VERIFYCAPTCHA_LABEL
Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: INVENTEI UM NAMORADO E ELE ERA MEU NOIVO BILIONÁRIO