~ ALÍCIA ~
— Essa é a... er... hum...
Samuel estava se enrolando de um jeito que tornava cada segundo que passava mais incriminador do que o anterior, então intervi de dentro do box antes que ele conseguisse piorar a situação.
— Namorada dele. Alícia.
Ótimo. Aparentemente eu tinha mesmo entrado no papel de Zara e estava agindo exatamente agora. Inventando namorado e tudo. Não que eu tivesse esperado que o destino simplesmente transformasse o primeiro homem que encontrei num beco fedorento no meu noivo também, mas... bem.
Aproveitei os dois segundos de silêncio que se seguiram para fazer o que qualquer pessoa razoável faria naquela circunstância — observei Samuel pela fresta da cortina rasgada com o olhar crítico de quem passou anos aprendendo a avaliar o que vale a pena e o que não vale, uma habilidade que minha mãe sempre chamou de superficialidade e que eu sempre chamei de eficiência.
Alto o suficiente para que eu precisasse levantar o queixo para olhar de frente. Ombros largos sem ser exagerado, do tipo que vem de trabalho real, não de academia ou de preocupação estética. Rosto que tinha aquele jeito malandro tipicamente carioca — olho vivo, sorriso que aparecia no canto da boca antes de chegar ao resto do rosto, a combinação de quem cresceu sabendo que o mundo não dava nada de graça, mas aprendeu a navegar nele de qualquer forma. Bonito, sem fazer esforço para ser, o que era o tipo mais irritante de bonito que existia.
Não era o tipo de homem que a minha mãe aprovaria. O que, eu estava percebendo, era uma recomendação bastante eficiente.
— Namorada? — A mulher respondeu, com o tom de quem não comprou aquilo nem por um segundo. — Tira essa garota daqui, agora!
Jogou a arma no chão junto com as minhas roupas sujas.
— Esvaziei o cartucho. — Explicou, seca. — Não quero confusão no nosso bar.
— Nosso bar? — A palavra escapou antes que eu decidisse falar. — Marília? Você é a Marília?
— O que você quer com ela? — A mulher disparou, agressiva.
— Marília é... era... a nossa mãe. — Samuel respondeu. — Foi morta há umas semanas. Bala perdida.
O silêncio que se instalou teve um peso diferente dos outros silêncios daquele dia.
— Sinto muito — deixei escapar baixinho.
E sentia. Sentia de verdade, com aquela singeleza de quem acabou de ouvir uma perda e não tem nada melhor a oferecer além da palavra mais inadequada do idioma.
Bala perdida. Uma expressão tão corriqueira no Rio que as pessoas a diziam como se fosse uma causa de morte natural, como infarto, quando na verdade era a prova de que havia lugares nessa cidade onde você podia morrer por simplesmente estar no lugar errado no momento errado, sem ter feito nada a não ser existir.
Mas sentia por mim também, e isso me envergonhava um pouco. Porque se a Zara tinha me mandado direto para a Marília, e a Marília estava morta, então o único plano que existia para eu sair daquela situação com alguma segurança tinha desaparecido junto com ela.
Eu estava ferrada.
— O que você queria com ela? — A mulher perguntou de novo, deixando claro que não ia largar o assunto até ter uma resposta que fizesse sentido.
— Nada, eu...
— Começa a falar! — ela gritou.


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Os comentários dos leitores sobre o romance: INVENTEI UM NAMORADO E ELE ERA MEU NOIVO BILIONÁRIO