~ ARTHUR ~
— Quem raios é você?
Talvez devesse ter me intimidado. Afinal, havia uma arma apontada para minha testa e eu estava com os reflexos embolados por remédio para dormir. Mas a pergunta saiu antes que o bom senso chegasse.
O homem na porta era largo — do tipo de largura que preenche uma entrada sem precisar de esforço, que vem de anos de presença física num mundo onde presença física importava. Moletom largo com capuz que cobria boa parte do rosto, jeans surrado, tênis sem marca, mas em bom estado. Nada que chamasse atenção numa rua qualquer. Tudo calculado para não chamar.
— Tu não pergunta nada aqui dentro, não. — Ele baixou a arma um centímetro, mas manteve o braço estendido. — E tu! — Apontou na direção do Thomas, que estava parado no corredor. — Nem tenta meter a mão no rádio ou dar o papo pra alguém.
Olhei para aquele rosto. Havia algo familiar que eu não conseguia nomear imediatamente. Talvez não os traços, não exatamente. Era mais uma postura, um jeito marrento demais.
— Você é o pai da Zara.
Não era pergunta. Era só a confirmação do que eu já sabia.
— Marreta. Meu vulgo é Marreta.
Ele me empurrou para dentro com o ombro, entrou, fechou a porta atrás de si num movimento único e fluido.
— Tu é médico, né? A Zara tá precisando de um doutor na máxima.
— O que aconteceu com ela?
A coronhada chegou antes que eu terminasse a frase. Não forte o suficiente para me derrubar ou tirar a consciência, mas forte o suficiente para fazer o mundo escurecer por meio segundo e me lembrar de que eu não estava em posição de fazer perguntas.
— Já te dei o papo. Sem pergunta. Pega teus pano de médico e rala comigo. Bora, agora.
— Pano de médico. — Mantive a voz firme apesar do latejamento que estava começando na têmpora. — O que eu devo pegar se eu não sei o que ela tem?
— Não fode, porra!
A arma foi contra o espelho da entrada — um movimento raivoso e preciso que não deixou dúvida sobre a intenção. O espelho se estilhaçou em mil fragmentos que caíram no chão de forma barulhenta.
Respirei fundo.
Não estava raciocinando com clareza total — os remédios ainda faziam efeito, o susto da campainha ainda não tinha dissipado completamente, e a preocupação com a Zara estava ocupando a maior parte do processamento disponível. Mas havia uma lógica naquilo que eu precisava usar, e havia algo mais: se o Marreta tinha vindo pessoalmente até o apartamento do Thomas, sabia onde eu estava. O que significava que alguém tinha me rastreado, o que era perturbador. Mas também significava que a Zara estava em estado suficientemente sério para que ele tivesse decidido que vir buscar um médico era necessário. E isso me preocupava mais do que a arma.
— Escuta aqui. É você que tá na minha área. — Falei com a calma que ainda conseguia reunir. — Você sabe muito bem que pode me matar, mas não vai sair daqui fácil. E além disso, se você veio pessoalmente até mim, precisa de mim. Então abaixe essa arma e me explica o que a Zara está precisando, porque eu não sou adivinho para saber o que levar.
Marreta me encarou com aquela ferocidade de quem não está acostumado a ser contrariado e está calculando se a raiva ou a lógica vai ganhar naquele momento.
A lógica ganhou. Parcialmente.
Ele baixou o braço, mas não guardou a arma.


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Os comentários dos leitores sobre o romance: INVENTEI UM NAMORADO E ELE ERA MEU NOIVO BILIONÁRIO