~ ALÍCIA ~
Sozinha no quarto, não havia muito o que fazer. Peguei um dos livros de medicina da escrivaninha, o mesmo que tinha folheado antes, me joguei na cama de Samuel e comecei a ler. Ou tentar ler. A cabeça não estava exatamente em modo de estudo, mas era melhor do que ficar olhando para o teto.
Soltei uma risadinha logo nas primeiras páginas.
Havia anotações por toda a margem. Não simples marcações de leitor distraído — eram atualizações. Correções sobre o que estava escrito no texto, com informações mais recentes, novos dados, às vezes até referências bibliográficas rabiscadas no rodapé em letra miúda e apertada. Como se alguém tivesse lido aquele livro com um outro livro ao lado, ou com artigos abertos, e fosse atualizando o que o original tinha errado ou deixado desatualizado.
— Uau... — murmurei, passando os dedos sobre uma das margens. — Nem eu saberia isso de cor.
E eu estava num dos melhores programas de medicina do Rio. Esse fato assentou de um jeito levemente incômodo.
Foi então que ouvi o barulho lá fora.
Um estampido seco. Distante, mas nítido o suficiente para fazer o estômago virar antes que o cérebro terminasse de processar. Poderia ser um tiro. Poderia ser o escapamento de uma moto. Eu sei que aqui as pessoas sabiam distinguir essas coisas com a naturalidade de quem cresceu ouvindo os dois sons. Mas eu não sabia, e para mim soava igual.
Larguei o livro, rolei para fora da cama e me joguei no chão com uma elegância zero de quem está priorizando não levar bala em vez de não se machucar na queda. Me enfiei embaixo da cama — bem embaixo, de barriga no chão, a cabeça virada para a porta — e fiquei lá, segurando a respiração com uma ansiedade que era proporcional ao quanto eu não entendia nada do que estava acontecendo naquele morro.
A porta se abriu.
Samuel entrou. Olhou para o livro caído no chão. Olhou para baixo da cama.
— O que você tá fazendo? — A voz dele era tão tranquila que me fez sentir imediatamente idiota.
— Nada, só... — Comecei a me arrastar para fora, tentando manter alguma dignidade no processo. Sentei no chão. — Meu anel caiu!
Mostrei o anel no dedo. Que nunca tinha saído de lá.
— Certo. — Ele balançou a cabeça, como quem decide não investir energia em questionar. — Anda. Vou te tirar daqui.
Pulei de pé antes que ele terminasse a frase.
— Vai? — A palavra saiu com um entusiasmo que eu definitivamente não estava tentando esconder. — Vai mesmo?
— Anda logo. Você mesma disse que a gente não tem muito tempo.
Deu as costas e começou a andar. Fui atrás, descemos a mesma escada rangendo de antes, atravessamos o corredor e saímos para o beco ao lado do restaurante.
A diferença era que dessa vez havia um caminhão de entrega enorme descarregando ali. Daqueles baús brancos sem janela, com a traseira aberta e uma rampa de alumínio encostada na guia da calçada. Dois homens movimentavam engradados de bebida sem prestar atenção em nós.
Samuel pulou para dentro do baú, depois se virou e estendeu a mão para mim.
O problema era que o único item do meu vestiário original que tinha sobrevivido àqueles últimos dias eram os Louboutin. Que tem muitas qualidades, como serem bonitos, clássicos e elegantes, mas não são exatamente feitos para escalar rampas de alumínio de caminhão em becos de favela.

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Os comentários dos leitores sobre o romance: INVENTEI UM NAMORADO E ELE ERA MEU NOIVO BILIONÁRIO