~ ALÍCIA ~
O pior era que ele tinha razão. Eles não se conheciam. Ela tinha passado menos de duas horas no quarto dele.
Mas tinha ouvido ele contar sobre a mãe e sobre os livros e sobre os vinte e seis anos vividos de uma forma que ela nunca teria vivido, e de alguma forma estava tratando Samuel como se fosse alguém em quem ela pudesse confiar. Era irônico, mas talvez fosse por causa da Zara. Zara confiava nele, ou pelo menos tinha confiado na mãe dele o suficiente para mandar Alícia até lá. E naquele momento a Zara era a única referência que ela tinha de pessoa que conhecia esse lugar e essas pessoas melhor do que ela.
Nos homens lá fora era diferente. Ela não sabia nada sobre eles além do fato de estarem colaborando por alguma razão que ela desconhecia. E toda vez que pensava que sua vida estava literalmente nas mãos de desconhecidos cujos rostos ela nunca tinha visto, o estômago dava uma reviravolta que ela precisava respirar fundo para conter.
— O que você prometeu a eles? Para eles colaborarem? — Perguntou, enquanto o caminhão se colocou em movimento, o motor vibrando através do assoalho de madeira.
— Isso é assunto meu.
— Não, não é. É assunto meu também. É minha vida que está em risco.
— Não é só a sua vida, burguesinha. — A voz dele saiu baixa mas firme. — É a vida de todo mundo aqui. Se te pegam, se pegam a gente ajudando, independente do que prometi a eles, todo mundo morre. Então cala a boca e torce pra isso dar certo.
Ela não gostou do que ouviu. Mas ficou quieta.
Ficou se remexendo no espaço apertado, tentando encontrar uma posição que fosse minimamente confortável, o que era uma busca por algo que definitivamente não existia ali.
— Tem formiga te mordendo? — Ele perguntou, estressado.
— Não enche.
Não era formiga. Por mais que ela não duvidasse que pudesse ter algumas ali, considerando o estado geral do compartimento. Era o desconforto de estar próxima demais de alguém que ela definitivamente não deveria estar achando atraente naquele contexto. Mas havia algo naquele jeito dele — direto sem ser grosseiro, calmo sem ser indiferente, aquele sotaque carioca misturado com aquela seriedade — que funcionava de um jeito que ela não havia esperado.
Era muito diferente dos caras com quem ela já tinha ficado. Que eram, em geral, versões ligeiramente variadas do mesmo modelo. Pessoas do seu mundo, do seu círculo. Com quem ela nunca sentiu aquela coisa específica de estar incomodamente consciente da própria respiração.
Os opostos se atraem. Ela nunca tinha dado muito crédito a isso. Estava começando a reconsiderar.
— Quantos anos você tem? — Ela se viu perguntando.
— O quê? — Não soou como se ele não tivesse entendido. Soou como se ele estivesse incrédulo com a pergunta naquele momento, o que era uma reação razoável.
— Só puxando assunto. — Ela tentou soar casual. — Estou nervosa. Preciso de distração.
— Sua distração não pode ser muda?
— Como? — Perguntei pouco desafiadora. — Até minhas mãos estão presas no momento. A única coisa que consigo usar é a boca. E olha o barulhão que esse caminhão está fazendo, não é possível que...
— Vinte e seis. — Ele a interrompeu. — Vinte e seis anos.
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Os comentários dos leitores sobre o romance: INVENTEI UM NAMORADO E ELE ERA MEU NOIVO BILIONÁRIO