— Arthur! Arthur!
Eu tinha visto o sangue antes de processar completamente o que era. Uma mancha escura na lateral da camisa dele, abaixo das costelas, que foi crescendo enquanto eu olhava — do tamanho de uma mão, depois maior, depois maior ainda, com aquela velocidade silenciosa e implacável do sangue que não para.
— Me solta! — Tentei me levantar da cadeira de rodas enquanto assistia Arthur perder as forças em câmera lenta, os joelhos dobrando antes que os médicos que tinham corrido em nossa direção conseguissem ampará-lo.
— Homem baleado, flanco esquerdo, hemorragia ativa! — A voz de alguém cortou o ar da emergência, e imediatamente havia mais gente ao redor dele, mãos, equipamentos, uma maca sendo empurrada de algum lugar.
— ARTHUR!
— Você precisa se acalmar. — Alguém segurou meus ombros com firmeza. — Preciso que fique calma.
Impossível.
Arthur tinha levado um tiro para me proteger. Provavelmente no momento em que estava se inclinando pela janela do carro tentando atirar nas rodas do veículo inimigo, e alguma bala tinha atravessado a lataria e o acertado sem que nenhum dos dois percebesse no calor daquilo tudo. Fazia sentido, em situações de adrenalina extrema, pessoas levam tiros e só percebem depois, quando o corpo para de produzir o hormônio que mascara tudo. Ele tinha ficado completamente focado em mim, em me proteger, em chegar até o hospital. E agora a adrenalina tinha baixado e Arthur estava sucumbindo, como qualquer pessoa normal sucumbe a um tiro no flanco que sangrou por tempo demais sem tratamento.
— É meu marido! Me deixa ir até ele! — Continuei me debatendo, mas estava sendo fortemente contida enquanto a cadeira de rodas me levava para longe dele, na direção contrária, por um corredor que eu não queria percorrer.
— Arthur! Arthur!
— Ele já está sob cuidados. — A voz tentava ser tranquilizadora, mas palavras não funcionavam naquele momento. — Vai ficar bem. Preciso que se mantenha calma.
Não havia como ficar calma. E a incapacidade de ficar calma tornava minha própria dor progressivamente mais insuportável, as pontadas vindo com uma intensidade insuportável, o corpo reagindo ao estresse exatamente da forma que eu sabia que não deveria reagir mas que não conseguia controlar.
Ouvi o médico — ou quem quer que estivesse ao meu lado — dizer em voz baixa para alguém que eu estava muito agitada e que precisavam administrar um sedativo. Continuei me debatendo. Continuei tentando me levantar, tentando alcançar alguma coisa, tentando chegar até Arthur de alguma forma que nenhum dos meus movimentos estava conseguindo viabilizar.
A sedação foi administrada pelo acesso venoso que alguém já tinha colocado no meu braço, assim que chegamos ao quarto e fui transferida da cadeira para a cama hospitalar.


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