~ THOMAS ~
Cheguei ao Sartori & Altieri pela entrada lateral da emergência — a que cortava dois corredores do caminho. Eu tinha passado anos o suficiente dentro daquele hospital para saber exatamente onde estava cada sala, cada corredor, cada atalho.
A equipe de plantão me reconheceu antes que eu precisasse me identificar completamente, e em menos de um minuto eu tinha o número da sala de cirurgia, o andar, e estava andando em direção ao visor com uma mistura de urgência e contenção de quem sabe que correr não adianta, mas parar é impossível.
Parei diante do visor.
O procedimento estava em andamento — três pessoas ao redor da mesa, mais uma ou duas auxiliando nas bordas, iluminação cirúrgica forte e direta, aquela coreografia silenciosa e precisa que eu reconhecia de anos de prática, mas que olhada de fora, pelo vidro, tinha uma qualidade diferente. Mais pesada. Especialmente quando o paciente na mesa era alguém que eu conhecia desde antes de sermos médicos, desde antes de sermos qualquer coisa profissional, desde antes de a vida ter exigido que nos tornássemos as pessoas que éramos.
O projétil tinha entrado pelo flanco esquerdo — eu sabia disso pelo que o médico de plantão me tinha dito rapidamente no corredor. O que eu não sabia ainda era a extensão do dano interno, e era isso que eu precisava ler pela movimentação da equipe através do vidro.
Com aquela localização, havia risco real de comprometimento do baço, o órgão mais vulnerável naquela região, com uma vascularização que sangrava fácil e muito. Ou do rim esquerdo. Ou de algum vaso de médio calibre que explicaria o volume de sangramento que ele tinha tido no caminho até o hospital — segundo fui informado — sem desabar completamente, o que dizia algo sobre a resistência dele mas não mudava o que o cirurgião estava tendo que lidar dentro daquela sala.
Pela velocidade com que a equipe trabalhava, pela posição dos braços do cirurgião principal, pela expressão fechada que eu conseguia ler mesmo através da máscara e do vidro, não era simples. Mas estava controlado. Havia uma diferença entre complicado e perdido, e o que eu estava vendo era complicado.
Fiquei até a sala começar a se direcionar para aquele movimento de término, onde o que era possível fazer tinha sido feito. Agora era com ele. Arthur precisava lutar pela vida.
O quarto da Zara ficava dois andares acima.
A enfermeira de plantão me informou que ela estava acordando. O sedativo tinha duração calculada, e as primeiras horas de sono controlado tinham passado. Entrei devagar, deixei a porta entreaberta para não criar aquela pressão de quarto completamente fechado, e fui até a cadeira ao lado da cama.
Ela estava de olhos fechados, mas com aquela respiração que não era mais sono profundo e sim de quem está voltando camada por camada, processando o ambiente antes de ter coragem de abrir os olhos para confirmá-lo.
Sentei e esperei.
— Arthur.
A primeira palavra dela não foi pergunta nem chamado. Foi só o nome, dito como quem estava verificando se a própria voz ainda funcionava.
— Oi. — Falei, baixo.
Os olhos dela abriram devagar. Ficou me olhando por um segundo com aquela desorientação de quem acabou de sair de sedação — o rosto reconhecível, o contexto ainda chegando em partes.

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