~ GEÓRGIA ~
Havia algo errado àquela manhã.
Não era uma coisa específica que eu pudesse apontar, era mais uma acumulação de detalhes pequenos que sozinhos não significavam nada mas juntos formavam um padrão de quando os adultos ao meu redor decidiram que eu era nova demais para saber de algo. A Dona Carmem andando mais rápido do que de costume pelos corredores e desviando o olhar quando eu cruzava com ela. As vozes que ficavam mais baixas ou paravam completamente quando eu entrava num cômodo. A mensagem que minha mãe tinha recebido no celular logo depois do café e que a fez sair para o jardim de inverno onde ficou andando de um lado para o outro até que eu parei de observar pela janela porque estava me deixando mais ansiosa do que ela.
E meu pai. Ele tinha saído para o hospital naquela manhã mais cedo do que eu jamais o tinha visto sair em toda a vida, com a camisa torta como se tivesse vestido com pressa, o celular na mão em vez de no bolso. Sem me dar uma explicação. Sem nem ao menos me olhar direito quando eu apareci no corredor perguntando para onde ia.
Eu tinha ouvido o nome do Arthur, sussurrado em algum corredor, pela voz de alguém que não era para ser ouvida.
O que era estranho, porque eu ainda não entendia completamente por que o Arthur tinha saído da mansão sem mais explicações dias atrás. Ele não atendia minhas ligações. Ninguém me explicava o que estava acontecendo com o processo da herança, com a Leonora, com nada — eu era a filha mais nova, eu era a que ficava de fora, eu era a que deixavam saber o mínimo necessário para não se preocupar, mas não o suficiente para entender de verdade. Estava cansada disso.
Mas por enquanto, a única coisa que eu podia fazer era tentar não enlouquecer.
Fui até a sala de música. Quase não tinha tocado mais desde que o Augusto tinha morrido. Não era decisão consciente, era mais porque eu abria a tampa do piano e ficava olhando para as teclas sem conseguir começar. Mas ele gostava quando eu tocava. Ficava sentado no sofá de couro com aquele sorriso de quem está ouvindo algo que o leva para outro lugar, e eu tocava melhor quando sabia que ele estava escutando. Talvez fosse isso, tocar por ele, mesmo que ele não estivesse mais lá para ouvir. Talvez me fizesse bem.
Sentei ao banco e pressionei algumas teclas. Depois parei.
Queria uma partitura específica — uma que o próprio Augusto tinha me dado anos atrás, dizendo que era de uma compositora que ela teria gostado de conhecer. Levantei e fui até o mezanino da sala, onde ele mantinha organizadas todas as partituras e alguns dos discos da coleção de vinil, separados por ordem alfabética.
Comecei a procurar.
Foi quando ouvi a porta da sala se abrindo.
— Aqui... aqui ninguém vai nos incomodar.
A voz da Leonora. Aquele tom de quem está usando um lugar como se fosse seu, com a naturalidade de quem assumiu que a propriedade já tinha trocado de mãos.
Me abaixei por instinto, ficando encoberta pelo guarda-corpos. Não gostava da Leonora, não gostava dela circulando pela mansão como se fosse dona, não gostava dos olhares que ela dava para os móveis e as paredes como se estivesse fazendo um inventário mental. Sempre achei que ia levar uma bronca simplesmente por existir no mesmo cômodo que ela. Então fiquei agachada, sem fazer nenhum movimento.
— Ótimo. — A segunda voz chegou com um toque de irritação, e eu precisei de um segundo para reconhecê-la.
Genevieve.

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