~ ARTHUR ~
Acordei bem cedo.
Zara ainda dormia, completamente entregue, a respiração funda, os ombros relaxados, o rosto sem nenhuma daquela tensão que eu tinha visto nela nos fragmentos de consciência das últimas horas, quando ela estava ao meu lado e eu estava a meio caminho de algum lugar que não era aqui. Havia marcas de cansaço debaixo dos olhos dela, não o cansaço de uma noite mal dormida, mas o cansaço de dias inteiros de adrenalina e medo e responsabilidade que o corpo não esquece rapidamente.
Fiquei acariciando o cabelo dela sem parar, como se tivesse feito isso a noite toda, que provavelmente era a verdade dado que meu braço estava completamente adormecido e eu não me importava minimamente com isso.
Tinha muita coisa para pensar. A fazenda, o helicóptero, a cicatriz no tórax que eu ainda não tinha olhado direito, mas que sabia que estava lá. O que tinha acontecido enquanto eu estava fora. O que ainda estava acontecendo lá fora enquanto estávamos aqui. Mas naquele momento, com a Zara dormindo no meu peito e o silêncio da fazenda ao redor, escolhi não pensar em nada disso ainda. Havia tempo. Primeiro isso.
Quando ela finalmente abriu os olhos, quase meia hora depois, a primeira coisa que fez foi piscar devagar, como se estivesse testando se era real antes de se comprometer com a realidade.
— Bom dia, dorminhoca.
— Meu Deus. — A voz saiu rouca de sono. — Eu apaguei. Nem sei quando foi a última vez que dormi tão bem.
— Teria dormido melhor se tivesse ido para um dos quartos.
— Não teria não. — Respondeu, sorrindo, e colou os lábios nos meus por um segundo que eu teria estendido se o tórax não lembrasse que tinha opiniões sobre movimentos bruscos. — Por que você não vai buscar um café pra gente?
Tentei soar como se fosse um pedido corriqueiro. Não era.
Ela riu.
— Você acha que sou boba? Por favor. No máximo um chazinho pra você.
Fiz uma careta, que ela ignorou completamente com aquela habilidade natural dela de ignorar exatamente o que quer ignorar.
— Um chazinho. — Concordei.
— Volto logo. — Mais um beijo, e ela saiu.
Peguei o celular assim que a porta fechou e mandei uma mensagem para o Thomas. Quase imediatamente ele apareceu, o que confirmou minha suspeita de que ele estava esperando exatamente por isso.
— Como você está? — Ele perguntou, já verificando o monitor com a eficiência automática de médico que não consegue entrar num quarto sem fazer isso. — Precisamos verificar a saturação, checar o dreno, ver como está o flanco...
— Estou bem. — Cortei. — E podemos lidar com isso depois. Agora eu preciso que você me conte tudo o que aconteceu enquanto fiquei desacordado. A Zara disse que vai me contar. E eu realmente acredito que ela vai, depois de tudo que passamos escondendo coisas um do outro. Mas ela vai pisar em ovos. Eu preciso que você os esmague de uma vez.
Thomas soltou uma pequena risadinha.
— Você sabe que é difícil segurar o lado quinta série mesmo sendo um médico renomado, não sabe?
Revirei os olhos, mas dei uma risadinha também.
— Vamos. Fala.
— Não aconteceu muito que não esperávamos. — Ele começou, muito provavelmente tentando organizar as informações antes de entregar.
— Mesmo? Então por que estou nessa fazenda e não no hospital?
— Porque descobrimos alguns dos cúmplices da Leonora. O doutor Guilardi. — Fez uma pausa, me olhando. — E a Genevieve.
— A Genevieve.
— Você ainda se surpreende?

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