Mais uma semana.
Foi o tempo que eu e Arthur passamos discutindo para ver quem tinha razão, quem ia agir primeiro, quem tinha o plano mais viável para lidar com a Genevieve sem que o resultado fosse catastrófico. Thomas do lado dele, argumentando com aquela lógica fria de médico que também conhecia o Arthur há anos e sabia onde cada argumento ia pousar. Alícia do lado meu, com aquela objetividade de pessoa que tinha mais a perder do que qualquer um de nós e por isso talvez tivesse mais clareza sobre o que precisava ser feito.
Quatro pessoas com opiniões firmes e nenhum consenso depois de sete dias.
A vantagem que eu tinha era simples e eu não me envergonhava de usá-la: eu não tinha saído de um pós-operatório seguido de coma induzido há três semanas. E isso era muito. Arthur podia argumentar o quanto quisesse, mas o corpo dele ainda estava impondo limites que a cabeça dele se recusava a reconhecer, e enquanto esses limites existissem havia uma margem de manobra que eu pretendia usar antes que ele recuperasse completamente o controle da situação.
Arthur já estava consideravelmente melhor — dormíamos no mesmo quarto agora, não mais no quarto médico, e as caminhadas tinham ficado mais longas e mais naturais, o tórax protestando cada vez menos, o flanco respondendo com menos queixa. Mas ainda não era 100%. E enquanto não fosse, eu tinha uma vantagem.
Por isso naquela madrugada eu me levantei o mais lentamente que consegui, cada movimento medido, cada mudança de peso antecipada. Peguei a bolsa que tinha deixado arrumada na noite anterior, escondida atrás da poltrona do quarto, e saí pé ante pé pelo corredor de madeira da fazenda, testando cada tábua antes de colocar o peso, parando quando algo rangeu mais do que o esperado, continuando quando o silêncio do quarto do Arthur não mudou.
Quando cheguei na varanda da frente e fechei a porta atrás de mim, respirei aliviada por não ter sido pega. Mas não tão aliviada quanto eu esperava me sentir, porque havia algo ali que eu tinha prometido para mim mesma que não ia mais fazer — agir escondida do Arthur. Tínhamos conversado sobre isso. Tínhamos chegado num lugar diferente como casal.
Mas ele não teria deixado eu ir. E eu precisava ir.
Era a última vez. Eu ia resolver tudo, e depois de hoje não ia ter mais nada para esconder.
Desci os degraus devagar e corri até onde o carro estava estacionado afastado da casa. Entrei no banco do carona, fechei a porta com cuidado.
— Tem certeza de que quer fazer isso?
— Absoluta. — A Alícia me lançou um sorriso do banco do motorista, aquele sorriso dela que era confiante demais para a situação, mas que eu tinha aprendido a reconhecer como o jeito dela de funcionar quando estava com medo.
— Por que você está me ajudando? Não somos amigas.
— Temos uma inimiga em comum. — Ela colocou o carro em movimento enquanto falava. — E mais do que isso... meu pescoço está na reta. Serei uma das mais beneficiadas se ela contar a verdade.
— Não é ser beneficiada quando se trata apenas dela falar a verdade.
— Talvez. — Ela deu de ombros. — Mas às vezes o mínimo que a gente precisa é bem difícil de conseguir, não é?
Não esperou por uma resposta e acelerou.
— Vamos logo, antes que alguém acorde.
Chegamos ao Rio quando a manhã já estava se estabelecendo — aquela luz de cidade grande, bem diferente da suavidade da luz de fazenda, que chega junto com o trânsito e o barulho e o ritmo que o interior simplesmente não tem. Havia algo estranhamente reconfortante em estar de volta — o Rio era o Rio, com todos os seus problemas, e eu tinha crescido sabendo navegar nele.

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