~ ARTHUR ~
Acordei sonolento e estendi a mão para o lado. Encontrei a cama estava vazia.
— Zara? — Chamei, achando que ela poderia estar no banheiro da suíte. — Acordou cedo hoje. Tudo bem?
Nenhuma resposta.
Me virei para confirmar o que a mão já tinha me dito. O lado dela da cama estava levemente bagunçado, não como se ela não tivesse dormido ali, mas como se tivesse acordado tempo suficiente atrás para que o travesseiro já tivesse perdido a forma. Fui até o banheiro. Vazio.
Tentei espantar aquela sensação de que algo estava fora do lugar enquanto fazia minha higiene matinal e me arrumava. Zara era da manhã às vezes, não consistentemente, não da forma que eu era, mas acontecia. E a fazenda tinha seus atrativos naquele horário: o café da Dona Conceição recém feito, o sol na varanda antes do calor pegar, as galinhas que ela tinha desenvolvido um apreço inexplicável desde a história dos dinossauros que o Dito tinha contado. Havia explicações razoáveis para ela não estar na cama quando eu acordei.
Desci para o café.
A Dona Conceição estava na cozinha. O Dito passava pela janela com os baldes no ritmo de sempre. E o Samuel estava sentado à mesa com um copo de café na mão e uma expressão levemente tensa de quem passou os últimos minutos tentando decidir se estava preocupado ou se estava sendo exagerado.
— Viu a Alícia? — Ele perguntou, sem nem mesmo dizer bom dia.
— Não. Viu a Zara?
— Não.
Trocamos um olhar. O tipo de olhar de duas pessoas chegando à mesma conclusão ao mesmo tempo sem precisar verbalizá-la. Nem a Zara nem a Alícia eram do tipo que acordavam com as galinhas normalmente, o que deixava ainda mais suspeito que as duas tivesse decidido fazer isso ao mesmo tempo, no mesmo dia. E dada a situação — uma com uma intimação policial pendente, a outra com uma gravidez de risco e recomendação de repouso — muito menos desapareceriam assim sem avisar ninguém.
Foi quando a Geórgia entrou na cozinha cantarolando alguma coisa baixinho.
— Cadê a Zara e a Alícia? — Fui logo perguntando.
— Bom dia pra você também. — Ela se serviu de um copo de suco de laranja fingindo que não estava evitando o assunto, o que imediatamente me disse que estava evitando o assunto. — Foram no mercado da cidade.
— No mercado da cidade? — Repeti.
— Alícia não deveria sair da fazenda. Ela sabe disso — Thomas disse.
— Eu sei. Quer dizer, ela sabe. Mas a Zara estava com desejo essa manhã. — Geórgia tomou um gole longo do suco. — Morango com chocolate e sal.
— Sal?
— Ela está grávida, Arthur, não eu, pergunte pra ela sobre os gostos peculiares. Então elas foram juntas até o mercado.
— E por que ela não me acordou?
— Porque você está se recuperando.
— E por que a Alícia não me acordou? Era melhor que eu fosse buscar do que ela se arriscar saindo da fazenda e...
— Olha, eu não sei, tá! — Ela disse, com a irritação vindo rápido demais. — Só sei que elas foram porque eu já estava acordada na varanda quando saíram. Não devem demorar.

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