Alícia parou o carro em frente ao casarão e nós duas ficamos sentadas por um momento nos olhando.
— Vou estar por perto. — Ela disse. — Qualquer coisa... Só sai gritando, sei lá.
— Vai ser uma bela cena — brinquei.
Alícia queria entrar comigo. Tinha deixado isso claro uns dias antes, direto ao ponto como ela sempre era:
— A polícia já não está procurando por mim? Então deixa eu entrar lá e acabar de vez com aquela vaca.
Eu sabia que não era verdade, que a Alícia jamais seria capaz de fazer mal a alguém nesse nível, mesmo que esse alguém fosse a Genevieve. Mas não duvidava da possibilidade dela ao menos encher a cara de Genevieve de uns bons t***s se tivesse a oportunidade, e aquilo eu conseguia imaginar com facilidade.
De qualquer forma, chegamos à conclusão de que não seria uma boa ideia. Por mais que ainda não existisse nenhuma ordem de prisão contra a Alícia, a situação era que ela estava ignorando uma intimação para comparecer e contar sua versão da história porque ela sabia que era o elo fraco ali. Entrar na casa da suposta vítima nesse meio tempo não era exatamente o movimento mais inteligente. Não quando a família da Genevieve estava lá e provavelmente não ia receber com entusiasmo a visita da garota que supostamente tentou assassiná-la.
— Ainda não sei se é uma boa ideia você entrar lá sozinha. — Alícia disse, olhando para o portão com a expressão de quem está pesando as opções e não gostando de nenhuma.
— Já discutimos isso. Não tem como você vir comigo.
— Bom, não dizem que o psicopata sempre volta ao local do crime?
— Ah, cala a boca! — Ri, mas logo voltei a ficar séria. — Vai dar tudo certo.
— Deixa o celular ligado. — Ela me olhou de maneira firme. — Eu sei que você desligou para evitar o Arthur, eu fiz o mesmo para evitar o Samuel. Mas a gente precisa conseguir se falar, qualquer coisa.
— Tudo bem.
Fiquei um pouco mais no carro sem me mover, sabendo que precisava ir mas sentindo o corpo ainda fazendo uma última avaliação das possibilidades.
Finalmente sai.
O casarão da Genevieve estava exatamente como eu lembrava — aquela arquitetura que parecia ter crescido junto com as árvores ao redor, as molduras nas janelas, o jardim bem cuidado. Diferente da mansão Sartori, que tinha a grandiosidade séria do legado. A casa da Genevieve tinha personalidade. Tinha personalidade, e eu odiava pensar nisso agora porque tornava mais difícil reduzir aquela mulher a vilã de uma vez só.
— Boa sorte! — A Alícia gritou pela janela quando eu finalmente comecei a andar.
Confirmei com a cabeça e fui.
Respirei fundo na calçada antes de ir até o portão. Me identifiquei para os seguranças tentando parecer que não era nada depois, só uma visita casual. Havia a possibilidade real de não me deixarem entrar. Eu era parte da confusão toda, e na versão da história que o Guilardi tinha construído para a polícia, eu era a paciente indefesa na cama que a Genevieve tinha tentado salvar e acabado se dando mal no lugar. A mãe da Genevieve podia ter raiva de mim. Podia me querer longe da filha. Podia ter dado instruções para os seguranças me barrar sem explicação. Podia...
— Pode entrar, senhora Zara. Estão te aguardando.
Ah. Menos um problema então.

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