— Fica calma — disse. — Se você demonstrar nervosismo eles vão nos parar.
— Porra ficar calma, Zara? — Alícia gritou, num volume que felizmente só eu podia ouvir com os vidros fechados. — É o meu pescoço que está na reta.
Soltei uma risadinha que veio sem querer.
— O quê? O que foi? — Ela me olhou, ainda estressada, com aquela expressão de quem não acha graça nenhuma.
— Sei lá. Acho que você tá convivendo muito comigo. Antes você não tinha esse tipo de vocabulário.
Ela riu de volta, um riso curto e involuntário que não conseguiu segurar.
— De vez em quando um palavrão ajuda a relaxar.
— Então use quantos quiser pra ficar calma, porque é a única chance que você tem agora. Rosto neutro, velocidade constante, mão firme no volante.
Os carros na frente seguiram — alguns passando direto, outros sendo parados. Eu observava o nervosismo da Alícia pelo jeito que a perna dela batia levemente no assoalho do carro, aquele tique de quem está tentando não demonstrar o que está sentindo e o corpo não coopera com a intenção. Mas pelo menos o rosto estava menos desesperado do que segundos minutos atrás, o que era progresso concreto dado que não havia muito mais a oferecer naquelas circunstâncias além de piadas ruins sobre palavrões.
Então chegou a nossa vez.
O policial olhou para o carro. Olhou para o rosto da Alícia. Fez o gesto para passar.
Alícia seguiu. Alguns metros à frente, ela soltou o ar num suspiro que parecia estar represado desde que avistamos as viaturas — um suspiro longo, inteiro, daqueles que o corpo faz quando finalmente acredita que o perigo passou.
— Graças a Deus — ela disse, a voz saindo mais fina do que o normal.
— Viu. — Sorri. — Hoje é um desses dias em que tudo vai dar certo. Hoje o dia está do nosso lado.
Mas eu não sabia que não podia estar mais errada.
Quando chegamos à fazenda, Samuel e Arthur estavam esperando do lado de fora, os dois em posições diferentes. Samuel mais perto do portão, Arthur um pouco mais atrás e de braços cruzados, e aquela diferença de posição já me disse alguma coisa antes que qualquer um abrisse a boca.

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