— Mãe, essa é a Zara. Minha futura esposa. — Arthur disse isso com uma voz levemente divertida que eu teria apreciado muito mais se eu não tivesse acabado de vomitar nos sapatos dela. — Zara, essa é minha mãe. Claire.
Fui subindo os olhos devagar.
Dos sapatos destruídos, que eram claramente caros e estavam claramente arruinados, para a saia impecável, para a camisa sem uma ruga, até chegar no rosto.
Claire Sartori tinha o tipo de beleza que vem de dinheiro familiar e de uma disciplina que eu imaginava incluir academia às seis da manhã e a capacidade de manter a expressão absolutamente imóvel mesmo diante de situações que a enraiveciam.
Como essa, por exemplo.
— Eu sinto muito — comecei, e era verdade. — Eu não estou me sentindo muito bem e...
— Certamente não está — ela respondeu, com uma frieza tão controlada que parecia técnica. — Ou por que outro motivo você estaria vestindo algo tão... peculiar?
— Ah, é... eu acabei de me mudar e ainda não tive tempo de...
— E seu cabelo precisa de uma hidratação e um corte. Urgentemente.
— Certo. Anotado.
Eu ainda estava dando desconto. Afinal, eu tinha vomitado nos sapatos da mulher. Havia um limite razoável de críticas que eu podia receber antes de começar a responder de um jeito que Arthur depois chamaria de... favelada.
— E tem algo anotado aí sobre o que eu faço com os meus Louboutin agora?
— Loubou... o quê? — Olhei para Arthur.
— Os sapatos — ele disse.
— Ah. — Pensei por um segundo. — Quanto a senhora calça? Posso te emprestar alguma coisa.
Claire me olhou com uma expressão que eu não soube catalogar.
— Como esse tênis belissimamente descolado na sola que você está usando tão adequadamente hoje?
— Bem. — Olhei para o meu tênis. — Pelo menos não tem vômito nele.
Ela não mexeu um músculo facial. Pensei que talvez o botox estivesse atrapalhando, mas guardei o comentário pra mim. Ela ainda era família. E eu precisava entender até onde ela era tão babaca quanto o filho ou onde apenas estava nervosa pelo incidente.
Mas ela não me deu tempo para concluir minhas análises.
Claire simplesmente se virou e saiu, com aquela postura de quem está acima de tudo que está acontecendo ao redor. Provavelmente indo atrás de alguém para resolver a situação dos sapatos. Ou encomendando um par novo num site americano com entrega por drone em trinta segundos, porque ela parecia exatamente esse tipo de mulher.
Me virei para Arthur e disse em tom de ironia:
— Acho que causei uma boa impressão.
Não esperei pela resposta e saí andando.
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