Me joguei na cama exausta. Tinha sido apresentada para um salão inteiro de pessoas, enfiado cachorro-quente na boca de alguém, vomitado nos sapatos da minha futura sogra e beijado um homem que eu não gostava.
Esse último item eu estava ignorando ativamente.
Antes de me render ao cansaço, consegui tomar banho, escovar os dentes, tirar o gosto do vômito e da bebida da boca. O que eu não tinha conseguido tirar, por mais água e pasta de dente que tivesse usado, era o gosto do beijo do Arthur.
— Babaca — murmurei para o teto. — Quem te deu o direito de me beijar assim?
Mas foi você quem começou — a vozinha irritante na minha cabeça rebateu.
— Não fui não.
Negue o quanto quiser. Você gosta dele.
— Por que eu gostaria de um idiota galinha que só me critica?
Porque sim.
Fiquei sem resposta para mim mesma. Porque não havia argumentos para “porque sim”. A vozinha tinha feito o ponto dela e saído de cena, o que era irritante porque eu não tinha com quem discutir mais.
Me virei para o lado com uma força desnecessária e fechei os olhos com determinação.
Demorei para dormir. Mais do que eu esperava, considerando o nível de esgotamento. O problema era o silêncio. Sentia falta da mola desconfortável da minha cama contra a minha coluna, do barulho de moto cantando o pneu lá fora, do vizinho com música alta às duas da manhã, do cachorro do fim da rua que latia para nada e para tudo.
Dormir na mansão era estranhamente pacífico. As paredes eram grossas, o colchão era bom demais, e a única coisa que eu ouvia era o vento lá fora e o meu próprio cérebro que, infelizmente, não tinha um botão de desligar. Isso, por si só, deveria ser excelente para uma noite de sono agradável.
Mas não era. Porque era estranho. E o estranho me mantinha acordada.
Quando finalmente levantei, na manhã seguinte, fui até a antessala do quarto — porque sim, meu quarto tinha uma antessala, o que ainda me parecia um exagero desnecessário mas eu estava deixando passar — e encontrei uma mesa de café da manhã posta.
Frutas, pães artesanais, frios variados, bolinhos que eu não sabia o nome, sucos em garrafinhas pequenas e chiques, um bule de café que cheirava melhor do que qualquer café que eu tinha tomado na vida. Fiquei olhando para aquilo por um segundo, tentando decidir se me sentia uma rainha ou uma impostora. A resposta honesta era as duas coisas ao mesmo tempo, com uma pitada de culpa que eu sabia que não fazia sentido mas que estava ali do mesmo jeito.
Sentei, ignorei tudo que eu não sabia identificar e montei um pão com queijo e presunto, me servi de um copo de suco de laranja espremido na hora. Foi o mais simples que consegui, mas ainda era melhor que noventa por cento dos cafés da manhã que eu já tinha tomado na vida.
A porta se abriu.
Geórgia entrou sem bater, o que a essa altura eu já tinha aceitado como característica permanente da pessoa, e se jogou numa cadeira vaga com a energia de quem já estava acordada há horas. Pegou o que parecia ser um croissant e mordeu antes de perguntar:
— Então? Preparada?
— Preparada pra quê?
— Pro nosso dia de compras. A gente combinou, lembra?
Eu lembrava. Mais ou menos. Porque combinar era uma palavra muito forte para o que tinha acontecido. Eu lembrava de Geórgia mencionando algo sobre compras e eu respondendo com um “vamos ver”, que no vocabulário de qualquer ser humano normal significa “não, mas sou educada demais para te dispensar diretamente então a gente deixa o assunto morrer sozinho”. Aparentemente para Geórgia significava “ok, amanhã cedo”.
— Geórgia, eu simplesmente não tenho dinheiro para isso e...
Ela soltou uma gargalhada tão genuína que o croissant quase não sobreviveu.
— Você tem dinheiro para comprar uma passagem de ida e volta pra lua só pela diversão, se quiser.
Piscei.


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